El tiempo, pues, constituye la posibilidad de vivir humanamente; de vivir. Ya que el vivir no es lo mismo que la vida. La vida es dada, mas es un don que exige de quien la recibe el vivirla, y al hombre de una especial manera.
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Vivir humanamente es una acción y no un simple deslizarse en la vida y por ella. Es lo que, según Ortega y Gasset, distingue al hombre de los demás seres vivos que conocemos. El hombre ha de hacerse su propia vida a diferencia de la planta y del animal que la encuentran ya hecha y que sólo tienen que deslizarse por ella, al modo de cómo el astro recorre su órbita —dormido—, dice. Es indudable.
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(Tomado de «El tiempo», en El sueño creador)
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© Instituto Cervantes (España), document (10 Set 2007). Reservados todos los derechos.
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(pesquisado em Out /2005 - 1.ª edição na primeira versão do blogue "doutamente", por mt, em Out 2005; clicar no título para aceder ao documento original)
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«um saber desincarnado é um saber inutilizável.»
Boas Vindas aos Visitantes!
Este blogue resulta da migração de outro, com o mesmo nome, que criei em 2005 para suporte, temporário, ao trabalho docente.
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Passados estes 3 anos, chegou o momento de o "doutamente" se assumir: blogue exclusivamente pessoal - de maria de fátima c. toscano - , guiado pela "sociologia crítica", pela "sociologia clínica" e pelas abordagens qualitativas em ciências sociais.
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Todas as afirmações que não estejam referenciadas expressam, pois, a minha opinião e perspectiva epistemo-teórico-metodológica. Grata pela visita,
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mfct, 15 Nov/2008
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Passados estes 3 anos, chegou o momento de o "doutamente" se assumir: blogue exclusivamente pessoal - de maria de fátima c. toscano - , guiado pela "sociologia crítica", pela "sociologia clínica" e pelas abordagens qualitativas em ciências sociais.
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Todas as afirmações que não estejam referenciadas expressam, pois, a minha opinião e perspectiva epistemo-teórico-metodológica. Grata pela visita,
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mfct, 15 Nov/2008
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(por decisão da autora, neste blog adopta-se a antiga ortografia).
onde estamos
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doutamente de Maria Toscano está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional Baseado no trabalho disponível em http://doutamente-mt.blogspot.pt/.
doutamente de Maria Toscano está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional Baseado no trabalho disponível em http://doutamente-mt.blogspot.pt/.
Doutamente recomenda Clínica de Saúde Dentária - Sorrisos Perfeitos
pobreza zero - manifesto, 1 Julho / 2005
www.pobrezazero.org
info@pobrezazero.org
MANIFESTO
Mais de 900 Organizações Internacionais em estreita coordenação com organizações e movimentos sociais de base em mais de 100 países promovem a maior mobilização
de sempre na história da luta contra a pobreza no mundo. A sociedade portuguesa não pode ficar indiferente.
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Junta-te a nós e faz ouvir a tua voz!
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Unindo as nossas vozes manifestamos:
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QUE a persistência da pobreza e da desigualdade no mundo de hoje não tem justificação. Apesar dos esforços realizados durante décadas, a desigualdade entre
ricos e pobres continua a aumentar. Hoje, mais de 3.000 milhões de pessoas carecem de uma vida digna por causa da pobreza. Fome, SIDA, analfabetismo, discriminação
de mulheres e meninas, destruição da natureza, acesso desigual à tecnologia,deslocação maciça de pessoas devido aos conflitos, migrações provocadas pela falta
de equidade na distribuição da riqueza a nível internacional… São as diferentes facetas do mesmo problema: a situação de injustiça que afecta a maioria da população mundial.
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QUE o desenvolvimento sustentável no planeta está seriamente ameaçado porque um quinto da população mundial consome irresponsavelmente, com a consequente sobreexploração de recursos naturais.
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QUE as razões da desigualdade e a pobreza se encontram na forma como organizamos a nossa actividade política e económica. O comércio internacional e a especulação financeira que privilegia as economias mais poderosas, uma dívida externa asfixiante e injusta para muitos países empobrecidos, bem como um sistema de ajuda internacional escasso e descoordenado tornam a actual situação insustentável.
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QUE para conseguir a eficácia das políticas de Desenvolvimento Institucional, o Desenvolvimento Humano Sustentável e Bens Públicos Globais é imprescindível
implementar uma governação global democrática e participativa.
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QUE o crescimento económico espectacular dos últimos anos não contribuiu para garantir os direitos humanos nem para melhorar as condições de vida em todas as
regiões do mundo, nem para as pessoas,independentemente da sua condição,género, etnia ou cultura.
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QUE lutar contra a pobreza, nas suas diferentes dimensões, significa actuar contra a exclusão das pessoas, a favor das garantias dos seus direitos económicos, sociais e culturais que se traduzem em protecção, trabalho digno, rendimento, saúde e
educação, poder, voz, meios de subsistência sustentáveis, em condições de igualdade. É um compromisso irrenunciável e inadiável: toda a sociedade no seu conjunto é responsável pela sua concretização.
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Unindo as nossas vozes queremos
- MAIS AJUDA pública para o desenvolvimento, dando prioridade aos sectores sociais básicos, até alcançar o compromisso dos 0,7% do PIB.
- MELHOR AJUDA, desligada de interesses comerciais, orientada para os países mais pobres e coerente com os Objectivos do Milénio.
- MAIS COERÊNCIA nas diferentes políticas dos nossos governos para que todas elas contribuam para a erradicação da pobreza.
- PERDOAR A DÍVIDA: os países ricos, o Banco Mundial e o FMI devem perdoar a 100% a dívida dos países mais pobres.
- DÍVIDA POR DESENVOLVIMENTO: investir os recursos criados pelo perdão da dívida dos países pobres para alcançar os Objectivos do Milénio.
- MUDAR AS NORMAS DO COMÉRCIO internacional que privilegiam os países ricos e os seus negócios e impedem os governos dos países pobres de decidir
como lutar contra a pobreza e proteger o meio ambiente.
- ELIMINAR OS SUBSÍDIOS que permitem exportar os produtos dos países ricos abaixo do preço de custo de produção, prejudicando o sustento das comunidades rurais nos países pobres.
- PROTEGER OS SERVIÇOS PÚBLICOS com o fim de assegurar os direitos à alimentação e o acesso à água potável e a medicamentos essenciais.
- FAVORECER O ACESSO À TECNOLOGIA por parte dos países menos desenvolvidos, de acordo com as suas necessidades, para que possam usufruir dos seus benefícios.
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Lisboa, 1 de Julho de 2005
MANIFESTO
Mais de 900 Organizações Internacionais em estreita coordenação com organizações e movimentos sociais de base em mais de 100 países promovem a maior mobilização
de sempre na história da luta contra a pobreza no mundo. A sociedade portuguesa não pode ficar indiferente.
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Junta-te a nós e faz ouvir a tua voz!
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Unindo as nossas vozes manifestamos:
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QUE a persistência da pobreza e da desigualdade no mundo de hoje não tem justificação. Apesar dos esforços realizados durante décadas, a desigualdade entre
ricos e pobres continua a aumentar. Hoje, mais de 3.000 milhões de pessoas carecem de uma vida digna por causa da pobreza. Fome, SIDA, analfabetismo, discriminação
de mulheres e meninas, destruição da natureza, acesso desigual à tecnologia,deslocação maciça de pessoas devido aos conflitos, migrações provocadas pela falta
de equidade na distribuição da riqueza a nível internacional… São as diferentes facetas do mesmo problema: a situação de injustiça que afecta a maioria da população mundial.
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QUE o desenvolvimento sustentável no planeta está seriamente ameaçado porque um quinto da população mundial consome irresponsavelmente, com a consequente sobreexploração de recursos naturais.
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QUE as razões da desigualdade e a pobreza se encontram na forma como organizamos a nossa actividade política e económica. O comércio internacional e a especulação financeira que privilegia as economias mais poderosas, uma dívida externa asfixiante e injusta para muitos países empobrecidos, bem como um sistema de ajuda internacional escasso e descoordenado tornam a actual situação insustentável.
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QUE para conseguir a eficácia das políticas de Desenvolvimento Institucional, o Desenvolvimento Humano Sustentável e Bens Públicos Globais é imprescindível
implementar uma governação global democrática e participativa.
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QUE o crescimento económico espectacular dos últimos anos não contribuiu para garantir os direitos humanos nem para melhorar as condições de vida em todas as
regiões do mundo, nem para as pessoas,independentemente da sua condição,género, etnia ou cultura.
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QUE lutar contra a pobreza, nas suas diferentes dimensões, significa actuar contra a exclusão das pessoas, a favor das garantias dos seus direitos económicos, sociais e culturais que se traduzem em protecção, trabalho digno, rendimento, saúde e
educação, poder, voz, meios de subsistência sustentáveis, em condições de igualdade. É um compromisso irrenunciável e inadiável: toda a sociedade no seu conjunto é responsável pela sua concretização.
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Unindo as nossas vozes queremos
- MAIS AJUDA pública para o desenvolvimento, dando prioridade aos sectores sociais básicos, até alcançar o compromisso dos 0,7% do PIB.
- MELHOR AJUDA, desligada de interesses comerciais, orientada para os países mais pobres e coerente com os Objectivos do Milénio.
- MAIS COERÊNCIA nas diferentes políticas dos nossos governos para que todas elas contribuam para a erradicação da pobreza.
- PERDOAR A DÍVIDA: os países ricos, o Banco Mundial e o FMI devem perdoar a 100% a dívida dos países mais pobres.
- DÍVIDA POR DESENVOLVIMENTO: investir os recursos criados pelo perdão da dívida dos países pobres para alcançar os Objectivos do Milénio.
- MUDAR AS NORMAS DO COMÉRCIO internacional que privilegiam os países ricos e os seus negócios e impedem os governos dos países pobres de decidir
como lutar contra a pobreza e proteger o meio ambiente.
- ELIMINAR OS SUBSÍDIOS que permitem exportar os produtos dos países ricos abaixo do preço de custo de produção, prejudicando o sustento das comunidades rurais nos países pobres.
- PROTEGER OS SERVIÇOS PÚBLICOS com o fim de assegurar os direitos à alimentação e o acesso à água potável e a medicamentos essenciais.
- FAVORECER O ACESSO À TECNOLOGIA por parte dos países menos desenvolvidos, de acordo com as suas necessidades, para que possam usufruir dos seus benefícios.
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Lisboa, 1 de Julho de 2005
vivemos em universos - a ciência ajuda a compreender
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domingo, 16 de novembro de 2008
Categorias do Tempo em Benveniste, por Annamaria Palacios
Categorias de tempo em Émile Benveniste e pressupostos discursivos da publicidade contemporânea em anúncios de cosméticos, Annamaria da Rocha Jatobá Palacios[1] - Universidade Federal da Bahia
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Introdução
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Este texto tem por objetivo apresentar três categorias de tempo (“físico do mundo”, “crônico” e “lingüístico”) desenvolvidas pelo lingüista francês Émile Benveniste, ao mesmo tempo em que procura articulá-las com características discursivas da publicidade contemporânea[2]. As categorias temporais e características discursivas da publicidade são tomadas como referenciais para apreciações de anúncios publicitários de cosméticos em revistas femininas brasileiras[3], publicadas durante a década de 90.
Dentre as três categorias de expressão do tempo desenvolvidas pelo linguísta francês, a noção de tempo linguístico terá uma particular ênfase, neste trabalho, uma vez que caracteriza o tempo específico da língua, organicamente ligado ao exercício da fala, definido e organizado como função do discurso, dentro de um sistema temporal bem mais amplo e complexo.
A noção de tempo lingüístico desenvolvida por Benveniste (1989) aponta para o estabelecimento do tempo do presente (referindo-se ao tempo verbal do presente do indicativo), inserindo-o como um tempo que se posiciona enquanto “ponto central”, a referenciar as demais temporalidades relacionadas com o tempo do passado e o tempo do futuro, no ato lingüístico. No entender do autor, o estabelecimento deste eixo temporal na língua termina por nortear a experiência de vida dos que a falam.
De acordo com Benveniste (1989), o presente lingüístico é o fundamento das oposições temporais da língua, uma vez que o presente constitui a linha de separação entre dois outros momentos engendrados por ele e que são igualmente inerentes ao exercício da fala: o momento em que o acontecimento não é mais contemporâneo do discurso, deixa de ser presente e deve ser evocado pela memória, e o momento em que o acontecimento ainda não é presente, virá a sê-lo, e se manifesta em prospecção.
Segundo o autor, há uma diferença de natureza entre a temporalidade retrospectiva, que pode assumir várias distâncias no passado de nossa vivência, e a temporalidade prospectiva, que não entra no campo de nossa experiência e não se temporaliza senão enquanto previsão dela. Conclui que a língua coloca em relevo uma dissimetria que está na natureza desigual da experiência.
Se o tempo do presente se traduz como eixo primordial da temporalidade na língua a ordenar a experiência humana, nos enunciados publicitários de cosméticos, o tempo do presente parece apontar para uma referência semelhante à descrição estabelecida pelo lingüista, quando, no momento do ato da leitura do anúncio, procura chamar a atenção da leitora para a necessidade de cuidar de si, por meio de um produto que parece ter sido fabricado unicamente para ela.[4]
Esta estratégia discursiva parece confirmar que, tomada a tríade de passado, presente e futuro, estruturada como eixo temporal a ordenar socialmente a temporalidade humana, os anúncios de cosméticos dão particular ênfase à temporalidade do presente, marcada pelo instante em que se realiza o “ato da leitura” do anúncio, que, igualmente, deve representar também o momento presente na vida da leitora.
Ancorada na temporalidade do presente esta estratégia discursiva também não evoca literalmente o passado com a orientação de que deve ser revivido; apenas o resgata enquanto “lembrança simbólica” de que esta mulher “foi” jovem, e que “deve” permanecer jovem, hoje, e em dias futuros.
É importante reiterar que as alusões temporais, nos enunciados de cosméticos, são marcadas pelo indicativo de “controle do tempo” e convertem-se em advertências às
consumidoras acerca da necessidade de preservar a juventude da pele do rosto e do corpo. Um dos argumentos mais fortes a fundamentar esta “necessidade” (inclusive, no anúncio, ela passa a ser “premente”), constitui-se no apelo para que a mulher desperte “desde já” para a importância de cuidar de sua pele, por meio de um produto cosmético, com a finalidade de conservá-la sempre jovem:
“A melhor idade para começar a usar um antiidade é a que você tem hoje” (Renew fórmula C, Avon);[5]
Este texto tem por objetivo apresentar três categorias de tempo (“físico do mundo”, “crônico” e “lingüístico”) desenvolvidas pelo lingüista francês Émile Benveniste, ao mesmo tempo em que procura articulá-las com características discursivas da publicidade contemporânea[2]. As categorias temporais e características discursivas da publicidade são tomadas como referenciais para apreciações de anúncios publicitários de cosméticos em revistas femininas brasileiras[3], publicadas durante a década de 90.
Dentre as três categorias de expressão do tempo desenvolvidas pelo linguísta francês, a noção de tempo linguístico terá uma particular ênfase, neste trabalho, uma vez que caracteriza o tempo específico da língua, organicamente ligado ao exercício da fala, definido e organizado como função do discurso, dentro de um sistema temporal bem mais amplo e complexo.
A noção de tempo lingüístico desenvolvida por Benveniste (1989) aponta para o estabelecimento do tempo do presente (referindo-se ao tempo verbal do presente do indicativo), inserindo-o como um tempo que se posiciona enquanto “ponto central”, a referenciar as demais temporalidades relacionadas com o tempo do passado e o tempo do futuro, no ato lingüístico. No entender do autor, o estabelecimento deste eixo temporal na língua termina por nortear a experiência de vida dos que a falam.
De acordo com Benveniste (1989), o presente lingüístico é o fundamento das oposições temporais da língua, uma vez que o presente constitui a linha de separação entre dois outros momentos engendrados por ele e que são igualmente inerentes ao exercício da fala: o momento em que o acontecimento não é mais contemporâneo do discurso, deixa de ser presente e deve ser evocado pela memória, e o momento em que o acontecimento ainda não é presente, virá a sê-lo, e se manifesta em prospecção.
Segundo o autor, há uma diferença de natureza entre a temporalidade retrospectiva, que pode assumir várias distâncias no passado de nossa vivência, e a temporalidade prospectiva, que não entra no campo de nossa experiência e não se temporaliza senão enquanto previsão dela. Conclui que a língua coloca em relevo uma dissimetria que está na natureza desigual da experiência.
Se o tempo do presente se traduz como eixo primordial da temporalidade na língua a ordenar a experiência humana, nos enunciados publicitários de cosméticos, o tempo do presente parece apontar para uma referência semelhante à descrição estabelecida pelo lingüista, quando, no momento do ato da leitura do anúncio, procura chamar a atenção da leitora para a necessidade de cuidar de si, por meio de um produto que parece ter sido fabricado unicamente para ela.[4]
Esta estratégia discursiva parece confirmar que, tomada a tríade de passado, presente e futuro, estruturada como eixo temporal a ordenar socialmente a temporalidade humana, os anúncios de cosméticos dão particular ênfase à temporalidade do presente, marcada pelo instante em que se realiza o “ato da leitura” do anúncio, que, igualmente, deve representar também o momento presente na vida da leitora.
Ancorada na temporalidade do presente esta estratégia discursiva também não evoca literalmente o passado com a orientação de que deve ser revivido; apenas o resgata enquanto “lembrança simbólica” de que esta mulher “foi” jovem, e que “deve” permanecer jovem, hoje, e em dias futuros.
É importante reiterar que as alusões temporais, nos enunciados de cosméticos, são marcadas pelo indicativo de “controle do tempo” e convertem-se em advertências às
consumidoras acerca da necessidade de preservar a juventude da pele do rosto e do corpo. Um dos argumentos mais fortes a fundamentar esta “necessidade” (inclusive, no anúncio, ela passa a ser “premente”), constitui-se no apelo para que a mulher desperte “desde já” para a importância de cuidar de sua pele, por meio de um produto cosmético, com a finalidade de conservá-la sempre jovem:
“A melhor idade para começar a usar um antiidade é a que você tem hoje” (Renew fórmula C, Avon);[5]
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“Hoje você é uma uva. Mas cuidado: uva passa”. Você precisa usar Pegolia porque a unica coisa da uva que melhora com o tempo é o vinho” (Pegolia, Anna Pegova).[7]
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As advertências para que o cuidado com a pele seja tomado o mais rápido possível, parecem baseadas na convicção (derivada da própria experiência com a passagem da vida) de que “são irreversíveis os estragos que o passar do tempo causa à aparência física”. Obviamente que, recorrendo-se a práticas mais pontuais, como as cirúrgicas, estes traços perdem um pouco o seu caráter de irreversibilidade.
Este texto foi estruturado por meio de uma divisão que corresponde, numa primeira parte, a uma breve apresentação do pensamento de Émile Benveniste, a partir do argumento de que “todas as línguas têm em comum certas categorias de expressão que respondem a um modelo constante”[8]. O autor destaca as categorias de pessoa e de tempo. Em nossas análises, comparecem os fundamentos relacionados com as formas lingüísticas que exprimem o tempo.
Em seguida, e em consonância com o pensamento deste autor, destacamos a categoria do tempo lingüístico, analisada pelo lingüista como o tempo próprio da língua, organicamente ligado a ela, que se coloca como função do discurso.
À parte final, desenvolvemos breves análises baseadas em premissas discursivas da publicidade contemporânea de cosméticos e relações que estabelece com as categorias temporais apontadas por Benveniste.
Este texto foi estruturado por meio de uma divisão que corresponde, numa primeira parte, a uma breve apresentação do pensamento de Émile Benveniste, a partir do argumento de que “todas as línguas têm em comum certas categorias de expressão que respondem a um modelo constante”[8]. O autor destaca as categorias de pessoa e de tempo. Em nossas análises, comparecem os fundamentos relacionados com as formas lingüísticas que exprimem o tempo.
Em seguida, e em consonância com o pensamento deste autor, destacamos a categoria do tempo lingüístico, analisada pelo lingüista como o tempo próprio da língua, organicamente ligado a ela, que se coloca como função do discurso.
À parte final, desenvolvemos breves análises baseadas em premissas discursivas da publicidade contemporânea de cosméticos e relações que estabelece com as categorias temporais apontadas por Benveniste.
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Categorias temporais
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Émile Benveniste inicia o capítulo “A Linguagem e Experiência Humana” (1989) argumentando que todas as línguas possuem em comum certas categorias de expressão que correspondem a um modelo constante.Em seguida, afirma que “as formas que revestem estas categorias são registradas e inventoriadas nas descrições, mas suas funções não aparecem claramente senão quando se as estuda no exercício da linguagem e na produção do discurso” [9].
O autor classifica as categorias anteriormente apontadas, como de pessoa e de tempo. Segundo Benvensite, elas se constituem como modalidades elementares, independentes de toda determinação cultural, e através delas visualizamos a experiência subjetiva dos sujeitos que se colocam e se situam na e pela linguagem [10].
Para Benveniste, de todas as formas lingüísticas reveladoras da experiência subjetiva, nenhuma é tão rica quanto aquelas que exprimem o tempo, nenhuma delas é também tão difícil de analisar em virtude da persistência das idéias pré-concebidas, das ilusões do “bom senso” (“bon sens”) e das armadilhas do psicologismo.
O autor admite que o termo tempo recobre representações muito diferentes, que são muitas as maneiras de colocar o encadeamento das coisas e que ele quer dar a conhecer, mostrar, provar, sobretudo, que a língua conceptualiza o tempo de modo totalmente diferente da reflexão.
Benveniste defende que a expressão do tempo é compatível com todos os tipos de expressão lingüística. Adverte que existe uma propensão geral, embora a considere natural, para entendermos que o sistema temporal de uma língua reproduz a natureza do tempo “objetivo”[11], por ser tão forte a nossa propensão a ver na língua o decalque da realidade.
Afirma que as línguas nos oferecem de fato construções diversas do real, e é talvez justamente no modo pelo qual elaboram um sistema temporal complexo que elas são divergentes. Recomenda que precisamos nos perguntar a que nível de expressão lingüística podemos atingir a noção de tempo que informa necessariamente todas as línguas, para em seguida, perguntarmos como se caracteriza esta noção.
Para o lingüista (1974;70) há com efeito o tempo lingüístico (“temps spécifique de la langue”), porém antes de chegar ao nível da expressão linguística, é necessário “transpor”, ou “atravessar”, duas etapas e reconhecer, sucessivamente, a fim de “desembaraçálas”(“dégager”), duas noções distintas do tempo: tempo físico do mundo (“temps physique du monde”) e tempo crônico(“temps chronique”).
Benveniste define o tempo físico do mundo como sendo infinito, linear, segmentável à vontade, tendo por correlato no homem uma duração infinitamente variável, que cada indivíduo mede pelo grau de suas emoções e pelo ritmo de sua vida interior. Do tempo físico e de seu correlato psíquico, surge a categoria do tempo crônico, que o autor define como sendo o tempo dos acontecimentos, que engloba também nossa própria vida, enquanto sequência de acontecimentos.
Para ele, nosso tempo vivido corre sem fim e sem retorno e esta se constitui numa experiência comum, pois não reencontramos jamais nossa infância, nem o ontem, nem o instante que acaba de passar. Nossa vida tem pontos de referência que situamos exatamente numa escala reconhecida por todos e aos quais ligamos nosso passado imediato ou longínquo.
Aqui aparece a tríade temporal de presente, passado e futuro. Vejamos como a reconhece o autor:
O autor classifica as categorias anteriormente apontadas, como de pessoa e de tempo. Segundo Benvensite, elas se constituem como modalidades elementares, independentes de toda determinação cultural, e através delas visualizamos a experiência subjetiva dos sujeitos que se colocam e se situam na e pela linguagem [10].
Para Benveniste, de todas as formas lingüísticas reveladoras da experiência subjetiva, nenhuma é tão rica quanto aquelas que exprimem o tempo, nenhuma delas é também tão difícil de analisar em virtude da persistência das idéias pré-concebidas, das ilusões do “bom senso” (“bon sens”) e das armadilhas do psicologismo.
O autor admite que o termo tempo recobre representações muito diferentes, que são muitas as maneiras de colocar o encadeamento das coisas e que ele quer dar a conhecer, mostrar, provar, sobretudo, que a língua conceptualiza o tempo de modo totalmente diferente da reflexão.
Benveniste defende que a expressão do tempo é compatível com todos os tipos de expressão lingüística. Adverte que existe uma propensão geral, embora a considere natural, para entendermos que o sistema temporal de uma língua reproduz a natureza do tempo “objetivo”[11], por ser tão forte a nossa propensão a ver na língua o decalque da realidade.
Afirma que as línguas nos oferecem de fato construções diversas do real, e é talvez justamente no modo pelo qual elaboram um sistema temporal complexo que elas são divergentes. Recomenda que precisamos nos perguntar a que nível de expressão lingüística podemos atingir a noção de tempo que informa necessariamente todas as línguas, para em seguida, perguntarmos como se caracteriza esta noção.
Para o lingüista (1974;70) há com efeito o tempo lingüístico (“temps spécifique de la langue”), porém antes de chegar ao nível da expressão linguística, é necessário “transpor”, ou “atravessar”, duas etapas e reconhecer, sucessivamente, a fim de “desembaraçálas”(“dégager”), duas noções distintas do tempo: tempo físico do mundo (“temps physique du monde”) e tempo crônico(“temps chronique”).
Benveniste define o tempo físico do mundo como sendo infinito, linear, segmentável à vontade, tendo por correlato no homem uma duração infinitamente variável, que cada indivíduo mede pelo grau de suas emoções e pelo ritmo de sua vida interior. Do tempo físico e de seu correlato psíquico, surge a categoria do tempo crônico, que o autor define como sendo o tempo dos acontecimentos, que engloba também nossa própria vida, enquanto sequência de acontecimentos.
Para ele, nosso tempo vivido corre sem fim e sem retorno e esta se constitui numa experiência comum, pois não reencontramos jamais nossa infância, nem o ontem, nem o instante que acaba de passar. Nossa vida tem pontos de referência que situamos exatamente numa escala reconhecida por todos e aos quais ligamos nosso passado imediato ou longínquo.
Aqui aparece a tríade temporal de presente, passado e futuro. Vejamos como a reconhece o autor:
“(...) podemos lançar o nosso olhar sobre os acontecimentos realizados, percorrê-los em duas direções, do passado ao presente ou do presente ao passado. Nossa própria vida faz parte destes acontecimentos, que nossa visão percorre numa direção ou em outra. Neste sentido, o tempo crônico, congelado na história, admite uma consideração bidirecional, enquanto nossa vida vivida corre num único sentido”[12].
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Neste processo bidirecional de olharmos os fatos, surge a noção de acontecimento. No tempo crônico, este que nós chamamos “tempo”, está a continuidade na qual se dispõem em série estes blocos distintos que são os acontecimentos. Porque os acontecimentos não são o tempo, eles estão no tempo. Para Benveniste, tudo está no tempo, exceto o próprio tempo.
Afirma que em todas as formas de cultura humana e em todas as épocas, constatamos, de uma maneira ou de outra, um esforço para objetivar o tempo crônico. É esta uma condição necessária da vida das sociedades e da vida dos indivíduos em sociedade. Este tempo socializado, destacado pelo autor, seria o calendário.
Todas as sociedades humanas instituíram um cômputo, ou uma divisão do tempo crônico, baseada na recorrência de fenômenos naturais: alternância do dia e da noite, duração entre uma colheita e outra, trajeto visível do sol, fases da lua, movimento das marés, estações do clima e da vegetação, etc.
Os calendários, para o autor, possuem traços comuns que indicam a que condições necessárias eles devem responder. A primeira condição é a que o autor denomina de estativa: um acontecimento muito importante que é admitido como dando às coisas uma nova direção, como exemplos, o nascimento de Cristo, que inicia o calendário ocidental cristão, e a fuga de Maomé de Meca para Medina, em 622 d.C., que marca o início do calendário islâmico. Desta primeira condição denominada estativa, decorre a segunda condição que é a diretiva: ela se enuncia pelos termos opostos “antes.../ depois...”, relativamente ao eixo de referência.
Uma terceira condição denomina-se mensurativa e ocorre a partir da fixação de um repertório de unidades de medida que servem para denominar os intervalos constantes entre as recorrências de fenômenos cósmicos. Assim, o intervalo entre a aparição e o desaparecimento do sol em dois pontos diferentes do horizonte será o “dia”; o intervalo entre duas conjunções da lua e do sol será o “mês” e assim sucessivamente, agrupandose semana, quinzena, trimestre, ano, século; ou através de critérios de divisão, estabelecendo as horas, minutos, segundos...
Estas seriam as caraterísticas do tempo crônico, que segundo o autor, fundamentam a vida das sociedades. Ou seja, a partir do eixo estativo, os acontecimentos são dispostos segundo uma ou outra visada diretiva, ou anteriormente (para trás), ou posteriormente (para frente) em relação a este eixo e eles são alojados em uma divisão que permite medir sua distância do eixo: tantos anos antes ou tantos anos depois do eixo, depois de tal mês e de tal dia do ano em questão.
Este eixo de referência não pode ser mudado aleatoriamente, uma vez que é marcado por algo que realmente[13] aconteceu no mundo e não apenas por uma convenção revogável. Os intervalos são constantes de um lado e do outro do eixo. Justifica o autor que, se este sistema não fosse imutável, ou seja, se os anos mudassem com os dias, ou se cada um de nós os contasse à sua maneira, nenhum discurso sensato poderia ser mantido sobre nada e a história inteira falaria a linguagem da loucura.
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Afirma que em todas as formas de cultura humana e em todas as épocas, constatamos, de uma maneira ou de outra, um esforço para objetivar o tempo crônico. É esta uma condição necessária da vida das sociedades e da vida dos indivíduos em sociedade. Este tempo socializado, destacado pelo autor, seria o calendário.
Todas as sociedades humanas instituíram um cômputo, ou uma divisão do tempo crônico, baseada na recorrência de fenômenos naturais: alternância do dia e da noite, duração entre uma colheita e outra, trajeto visível do sol, fases da lua, movimento das marés, estações do clima e da vegetação, etc.
Os calendários, para o autor, possuem traços comuns que indicam a que condições necessárias eles devem responder. A primeira condição é a que o autor denomina de estativa: um acontecimento muito importante que é admitido como dando às coisas uma nova direção, como exemplos, o nascimento de Cristo, que inicia o calendário ocidental cristão, e a fuga de Maomé de Meca para Medina, em 622 d.C., que marca o início do calendário islâmico. Desta primeira condição denominada estativa, decorre a segunda condição que é a diretiva: ela se enuncia pelos termos opostos “antes.../ depois...”, relativamente ao eixo de referência.
Uma terceira condição denomina-se mensurativa e ocorre a partir da fixação de um repertório de unidades de medida que servem para denominar os intervalos constantes entre as recorrências de fenômenos cósmicos. Assim, o intervalo entre a aparição e o desaparecimento do sol em dois pontos diferentes do horizonte será o “dia”; o intervalo entre duas conjunções da lua e do sol será o “mês” e assim sucessivamente, agrupandose semana, quinzena, trimestre, ano, século; ou através de critérios de divisão, estabelecendo as horas, minutos, segundos...
Estas seriam as caraterísticas do tempo crônico, que segundo o autor, fundamentam a vida das sociedades. Ou seja, a partir do eixo estativo, os acontecimentos são dispostos segundo uma ou outra visada diretiva, ou anteriormente (para trás), ou posteriormente (para frente) em relação a este eixo e eles são alojados em uma divisão que permite medir sua distância do eixo: tantos anos antes ou tantos anos depois do eixo, depois de tal mês e de tal dia do ano em questão.
Este eixo de referência não pode ser mudado aleatoriamente, uma vez que é marcado por algo que realmente[13] aconteceu no mundo e não apenas por uma convenção revogável. Os intervalos são constantes de um lado e do outro do eixo. Justifica o autor que, se este sistema não fosse imutável, ou seja, se os anos mudassem com os dias, ou se cada um de nós os contasse à sua maneira, nenhum discurso sensato poderia ser mantido sobre nada e a história inteira falaria a linguagem da loucura.
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Tempo linguístico
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Após destacar as modalidades de tempo físico do mundo e tempo crônico, Benveniste as aproxima da categoria de tempo linguístico associada com a produção do discurso. Destaca que, “uma coisa é situar um acontecimento no tempo crônico, outra coisa é inseri-lo no tempo da língua. É pela língua que se manifesta a experiência humana do tempo, e o tempo linguístico manifesta-se irredutível igualmente ao tempo crônico e ao tempo físico”[14].
O tempo linguístico tem seu centro no presente da instância da fala. Cada vez que um locutor emprega a forma gramatical do “presente”, ou seu equivalente, ele situa o acontecimento como contemporâneo da instância do discurso que o menciona. Benveniste conclui que, na realidade, a linguagem não dispõe senão de uma única expressão temporal, o presente, e que este é assinalado pela coincidência do acontecimento e do discurso.
O autor observa que a língua deve, por necessidade, ordenar o tempo a partir de um eixo, e este é sempre e somente a instância do discurso. O presente é usado como uma linha de separação entre o que não é mais presente e o que vai sê-lo. De acordo com o autor, estas duas referências não se relacionam ao tempo, mas às visões sobre o tempo, projetadas para trás e para frente. Segundo o linguista, esta parece ser a experiência fundamental do tempo, de que todas as línguas dão testemunho à sua maneira.
Benveniste chama a atenção para o fato de como a temporalidade se insere no processo da comunicação. Reafirma que a condição de intersubjetividade é que torna possível a comunicação lingüística. Destaca a especificidade do tempo lingüístico em relação ao tempo crônico, afirmando que o tempo lingüístico comporta suas próprias divisões e sua própria ordem, e tanto esta (a ordem), quanto aquelas (as divisões) são independentes do tempo crônico.
Após destacar as modalidades de tempo físico do mundo e tempo crônico, Benveniste as aproxima da categoria de tempo linguístico associada com a produção do discurso. Destaca que, “uma coisa é situar um acontecimento no tempo crônico, outra coisa é inseri-lo no tempo da língua. É pela língua que se manifesta a experiência humana do tempo, e o tempo linguístico manifesta-se irredutível igualmente ao tempo crônico e ao tempo físico”[14].
O tempo linguístico tem seu centro no presente da instância da fala. Cada vez que um locutor emprega a forma gramatical do “presente”, ou seu equivalente, ele situa o acontecimento como contemporâneo da instância do discurso que o menciona. Benveniste conclui que, na realidade, a linguagem não dispõe senão de uma única expressão temporal, o presente, e que este é assinalado pela coincidência do acontecimento e do discurso.
O autor observa que a língua deve, por necessidade, ordenar o tempo a partir de um eixo, e este é sempre e somente a instância do discurso. O presente é usado como uma linha de separação entre o que não é mais presente e o que vai sê-lo. De acordo com o autor, estas duas referências não se relacionam ao tempo, mas às visões sobre o tempo, projetadas para trás e para frente. Segundo o linguista, esta parece ser a experiência fundamental do tempo, de que todas as línguas dão testemunho à sua maneira.
Benveniste chama a atenção para o fato de como a temporalidade se insere no processo da comunicação. Reafirma que a condição de intersubjetividade é que torna possível a comunicação lingüística. Destaca a especificidade do tempo lingüístico em relação ao tempo crônico, afirmando que o tempo lingüístico comporta suas próprias divisões e sua própria ordem, e tanto esta (a ordem), quanto aquelas (as divisões) são independentes do tempo crônico.
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(Para conhecer a análise dos anúncios, cf. a restante parte deste artigo In http://www.bocc.ubi.pt/)
(Para conhecer a análise dos anúncios, cf. a restante parte deste artigo In http://www.bocc.ubi.pt/)
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[1] Professora do quadro permanente da Faculdade de Comunicação(Facom) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Brasil.Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Facom/UFBA. Atualmente, desenvolve estágio doutoral (“Sanduíche”) no Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro/Portugal, subvencionado pelo CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia, Brasil
[2] Este texto é parte de minha investigação doutoral, elaborado durante o período de Estágio Doutoral “Sanduíche” (de março de 2002 a março de 2003 e com apoio do CNPQ/Brasil) realizado no Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, sob orientação da Profa. Dra. Rosa Lídia Coimbra.
[3] Os 17 anúncios analisados neste texto inserem-se no corpus de minha pesquisa doutoral. Fazem parte de um sub- grupo, caracterizado por anúncios cujas marcas lingüísticas estão literalmente associadas ao tempo e suas simbologias sociais. Entretanto, o corpus da pesquisa compreende, aproximadamente, 250 anúncios extraídos de três revistas femininas (Cláudia, Marie Claire e Elle), no período de uma década (janeiro de 1990 a dezembro de 1999), tendo sido coletado e selecionado pela autora em viagem de trabalho de campo, às Editoras Globo e Abril, na cidade de São Paulo, em outubro de 2001.
[4] Nos enunciados de cosméticos, o tratamento dispensado às leitoras, por meio do pronome pessoal você faz parecer que a relação entre eles (os sujeitos comunicantes e os destinatários >leitora da revista> potencial consumidora) seja permeada pela sensação de intimidade, de proximidade. Estes aspectos que caracterizam, e terminam por articularizar, o universo discursivo da publicidade de cosmétiocs, foram contemplados por nós em texto intitulado “Breves articulações entre noções da Análise de Discurso e pressupostos teóricos da publicidade, em análise de anúncio” apresentado em Conferência Pública no Departamento de Línguas e Cultura da Univer-sidade de Aveiro, em maio de 2002. Entretanto, podem ser aprofundados por meio do texto “Subjetividade, Argumentação, Polifonia – a propaganda da Petrobrás”, de Helena Nagamine Brandão (São Paulo: Imprensa Oficial do Estado/ Editora da Universidade Estadual Paulista, 1998).
[5] Elle, dezembro de 1997.
[6] Marie Claire, dezembro de 1996.
[7] Marie Claire, junho de 1996.
[8] (1974;67)
[9] (1989;66)
[10] (1974;67)
[11] À página 69, do texto “Problèmes de Lingusitique Générale” (Paris: Éditions Gallimard, 1974) Benveniste destaca a palavra entre aspas (“objectif”).
[12] (1989;71)
[13] Ou pode ser “socialmente” aceito como tendo acontecido.
[14] (1989;74)
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(pesquisado em 5 junho /2005 - 1.ª edição na primeira versão do blogue "doutamente", por mt, a 5 junho/2005)
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La otra historia... César González Mínguez (1993)
MÍNGUEZ (Ed.), César González (1993), La otra Historia, Sociedad, Cultura y Mentalidades, Bilbao, Universidad del País Vasco, Servicio Editorial / Euskal Herriko Unibertsitatea, Argitarapen Zerbitzua, 1ª. ed., 118 p.
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MINGUEZ, Cesar GONZALEZ, «Sobre Arte, Literatura e Historia de las Mentalidades» in MINGUEZ (Ed..) (1993): 15 - 23.
« Hace ya casi dos décadas que Jacques Le Goff, con enorme agudeza, déjó planteados los problemas esenciales que afectaban a este nuevo ámbito temático: "...para el historiador de hoy, mentalidad es aún algo nuevo y ya envilecido. (...) Mientras se trate aún de un frente pionero, de un terreno por roturar, uno se pregunta si la expresión encubre una realidad científica, si oculta una coherencia conceptual, si es epistemológicamente operativa. Atrapada por la moda, parece ya pasada de moda? Hay que ayudarla a ser o a desaparecer?"» (p.21)
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« Y desde luego, la revalorización que de la mano de la Historia de las Mentalidades se ha dado a la iconografía, a las fuentes narrativas, a la literatura en general, y a la arqueología, por ejemplo, como medios imprescindibles para conocer la vida de los hombres de otros tiempos constituye un avance del que ya no se podrá prescindir.» (subl. n.).(p.22)
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«La materia prima siempre ha sido la misma, es decir, la amplísima gama de fuentes históricas, pero las destilaciones a que se la ha sometido, variables en cada época y por parte de cada historiador, ha dado lugar a productos bien diferentes y en constante proceso de depuración, Historia Política, Historia de las Instituciones, Historia Militar, Historia Económica, Historia Social... y, por último, Historia de las Mentalidades. ?Acaso es conveniente enfrentar cada una de estas especialidades en una mútua y permanente descalificación? Con urgencia se hace necesario huir de cualquier desprecio o vejación hacia el colega que no practica la Historia desde idénticos principios o perspectivas a los de uno mismo. Los pretendidos monopolios de la verdad, que algunos historiadores utilizan o dispensan con fervor sacramental, llevan un germen de intolerancia que poco beneficia al progreso de la ciencia.»
« Si algún sentido conserva todavía la Historia sin más, sin ningún tipo de calificación restrictiva, es la de ser un saber integrador, en el que caben todos los análisis de las múltiples facetas que presenta la realidad histórica, es decir, la acción del hombre a través de los tiempos.» (pp.22-23).
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(pesquisado em 5 junho /2005 - 1.ª edição na primeira versão do blogue "doutamente", por mt, a 5 junho/2005)
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MINGUEZ, Cesar GONZALEZ, «Sobre Arte, Literatura e Historia de las Mentalidades» in MINGUEZ (Ed..) (1993): 15 - 23.
« Hace ya casi dos décadas que Jacques Le Goff, con enorme agudeza, déjó planteados los problemas esenciales que afectaban a este nuevo ámbito temático: "...para el historiador de hoy, mentalidad es aún algo nuevo y ya envilecido. (...) Mientras se trate aún de un frente pionero, de un terreno por roturar, uno se pregunta si la expresión encubre una realidad científica, si oculta una coherencia conceptual, si es epistemológicamente operativa. Atrapada por la moda, parece ya pasada de moda? Hay que ayudarla a ser o a desaparecer?"» (p.21)
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« Y desde luego, la revalorización que de la mano de la Historia de las Mentalidades se ha dado a la iconografía, a las fuentes narrativas, a la literatura en general, y a la arqueología, por ejemplo, como medios imprescindibles para conocer la vida de los hombres de otros tiempos constituye un avance del que ya no se podrá prescindir.» (subl. n.).(p.22)
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«La materia prima siempre ha sido la misma, es decir, la amplísima gama de fuentes históricas, pero las destilaciones a que se la ha sometido, variables en cada época y por parte de cada historiador, ha dado lugar a productos bien diferentes y en constante proceso de depuración, Historia Política, Historia de las Instituciones, Historia Militar, Historia Económica, Historia Social... y, por último, Historia de las Mentalidades. ?Acaso es conveniente enfrentar cada una de estas especialidades en una mútua y permanente descalificación? Con urgencia se hace necesario huir de cualquier desprecio o vejación hacia el colega que no practica la Historia desde idénticos principios o perspectivas a los de uno mismo. Los pretendidos monopolios de la verdad, que algunos historiadores utilizan o dispensan con fervor sacramental, llevan un germen de intolerancia que poco beneficia al progreso de la ciencia.»
« Si algún sentido conserva todavía la Historia sin más, sin ningún tipo de calificación restrictiva, es la de ser un saber integrador, en el que caben todos los análisis de las múltiples facetas que presenta la realidad histórica, es decir, la acción del hombre a través de los tiempos.» (pp.22-23).
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(pesquisado em 5 junho /2005 - 1.ª edição na primeira versão do blogue "doutamente", por mt, a 5 junho/2005)
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quinta-feira, 6 de novembro de 2008
HISTÓRIA ORAL: UMA SÍNTESE REFLEXIVA, emilio sarde neto
Em Usos e Abusos da História Oral Philippe Joutard faz um Balanço sistemático de diversas pesquisas em História Oral, procurando mostrar as progressivas mudanças da prática da História Oral em toda sua complexidade.
Desde os tempos mais remotos grupos utilizaram o método Oral para passagem de suas tradições culturais, mas com o advento da cientificidade a partir do século XVII, o testemunho oral vai perdendo gradativamente relevância nos meios científicos, e perde sua importância primordial, a veracidade.
Em países de antiga tradição escrita a re-introdução da fonte oral, na metade do século XX, como instrumento de pesquisa não é bem recebido pelos historiadores. A marginalização, o confronto entre o Oral e o Escrito, a originalidade de ambos os textos divide os historiadores. Duas são as correntes que desde o início dividem a História Oral, a primeira é vinculada as ciências políticas voltadas para as elites e os notáveis, a segunda encontra-se nas fronteiras da antropologia voltando seus auspícios para os “individuos despossuidos de história”. Disciplinas como a sociologia e lingüística também utilizam métodos de oralidade em suas pesquisas.
Na primeira metade do século XX, mais especificamente nos anos 50 surge nos Estados Unidos o primeiro grupo de historiadores que utilizam o método oral. Tinham como objetivo reunir materiais para os biógrafos vindouros, dando suporte para as ciências políticas e conseqüentemente abraçando ideais notáveis. Trabalhos estes pobres de reflexão metodológica e análise crítica.
Na Itália, próximos de partidos de esquerda, sociólogos e antropólogos são os precursores da Segunda forma de História Oral. Surgida em meados da década de 60, utilizaram o método oral de pesquisa na reconstituição da cultura popular.
Agora não se trata mais de simples complementação de materiais escritos e sim do outro lado da moeda, de uma outra história que da voz aos “povos sem história”, os vencidos, os operários, negros, índios, mulheres os marginais. Está à margem da academia se pretende militante.(Phillip Joutarde.Apud. Usos e Abusos da História Oral, 1996: 45.).
É praticada por intelectuais de todas as matizes, ou simplesmente lideres comunitários.
Prega o não conformismo sistemático, e radicalmente conclui-se que é uma história alternativa, em relação não só a história acadêmica, mas a todas as construções historiográficas baseadas no escrito.
O XIV Congresso Internacional de Ciências Históricas de São Francisco realizado em 1975, contou com uma mesa redonda intitulada “A História Oral como uma nova metodologia para pesquisa histórica” muito impressionou os congressistas dando origem ao ponto de partida do que pode ser considerado como o Terceiro ciclo da História Oral.
Começa então a manifestação da tendência historiográfica da História Oral. Na Itália incorpora-se em projetos de exposição fonográfica, que impulsiona verdadeiros manifestos sobre a história oral como meio de estudar as classes populares. Foram criadas revistas como a Fonte Orali, que durou até 1987, reuniu antropólogos e historiadores interessados nas tradições populares.
Na França, foram instituídos projetos coletivos como a criação da Associação Francesa de Arquivos Sonoros, e em 1980 o primeiro encontro francês de pesquisadores orais.
Na América Latina manifestam-se as duas tendências, a criação da Fundação Getúlio Vargas. Em Costa Rica em 1976 é organizado o primeiro concurso nacional de autobiografias de camponeses patrocinada pela Escola de Planejamento e Promoção Social da Universidade Nacional. Mais tarde tenta-se fazer uma reconstituição histórica pré-colombiana, fazendo a população ameríndia narrar sua própria história. Bolívia, Nicarágua e Equador, pesquisas são realizadas sobre o mundo camponês. Na Argentina os projetos orais multiplicam-se com o restabelecimento da democracia em 1983.
Um pouco mais tarde a Espanha recupera seu atraso com muitos projetos colóquios e seminários que se espalham por todo o território espanhol.
No Japão em 1986, simpósios e debates historiográficos destacam a necessidade da História Oral em particular para colher depoimentos sobre a Segunda Guerra Mundial.
Uma verdadeira comunidade de história oral caracteriza os anos de 1980, pela sua infinidade de colóquios internacionais, época em que cresceu a necessidade de promover programas de história oral para enriquecer museus, arquivos e universidades.
Países como a Itália e França tornaram a pesquisa oral um meio pedagógico eficaz para o desenvolvimento das aulas de história motivação do corpo discente.
O terceiro ciclo de história oral foi um período de reflexões metodológicas e epistemológicas, que sufoca a idéia ignorante de que a entrevista pudesse atingir a realidade, fazendo com que inclusive houvesse uma maior profissionalização no que diz respeito aos projetos de história oral e sua profissionalização. Ressaltando que a difusão do gravador muitas vezes resulta em operações mal preparadas comprometedoras de resultados da história oral, pois fornece argumentos aos seus detratores.
A década de 1990 marca o advento do que pode chamar-se de quarta geração, que estariam envoltos em um mundo de imagens som e oralidade influenciada nos Estados Unidos pelos movimentos críticos pós-modernistas, década de 1960, traduzidos na valorização da subjetividade, o que seria para muitos, conseqüência ou mesmo finalidade da história oral. Os gravadores vão sendo gradativamente substituídos pela câmara de vídeo, que permite uma maior complexidade dos fatos históricos agora presenciados.
A história de vida como uma completa e coerente narrativa de vida não existe na natureza, ela é um produto substancial da ciência social. A entrevista subentende, realça a autoridade e a autociência do narrador, podendo levantar questões sobre aspectos da experiência do relator o respeito dos quais ele nunca fez menção ou pensou seriamente.
O narrador tende a lutar pela maior dicção possível, haverá tentativas de reparo à conversa, correções repetições incrementadas de acabamento entre muitas outras tentativas de chegar a um melhor resultado do trabalho final.
A tarefa do historiador “oral” é escrever de tal modo que os leitores certifiquem-se das origens orais do texto que estão lendo.
O pesquisador de campo não está no campo para falar mas para ouvir e nunca expressar idéias próprias complicadas, que turvassem os relatos dos locutores. A ficção de não interferência transforma o diálogo em dois monólogos: os informantes fornecem um monólogo de fatos brutos enquanto os historiadores e antropólogos supririam um monólogo de idéias sofisticadas que o informante nunca ouvira a respeito.
Quanto menos os historiadores revelam sobre sua identidade e pensamentos, mais se torna possível de os informantes se inclinarem em testemunhos amplos e seguros, e se apegarem às mais superficiais camadas de sua consciência e os aspectos superficiais e mais públicos de sua cultura.(Portelli. Apud. Projeto História 22, 2001: 22.).
Um entrevistador com habilidade pode induzir o narrador a abrir e revelar camadas menos facilmente acessíveis de conhecimento pessoal crença e experiência. No trabalho acadêmico o historiador se manifesta através das fontes, repetindo as suas palavras para marcar uma situação, e usando sua textualidade artificial para ampliar a autoridade do discurso histórico.
Uma história de vida em profundidade uma coleção de entrevistas um ensaio interpretativo em período histórico, todos são história oral, mas não são a mesma coisa, elas assinalam a existência de muitos gêneros diferentes com muitas estratégias retóricas diversas. A um jogo de mistura onde existe uma mistura de autobiografias, psicanálise, historiografia, história social, literatura constituindo-se em gênero novo.
A maneira como as vozes do narrador são incluídas no livro do historiador também depende se o efeito que o livro busca é de factualidade material, ou se o valor estético de uma história boa inventada ou não é tomada como sinal de subjetividade cultural ou individual e se o historiador pretende convencer o leitor de algumas revelações estéticas ou prazeres experimentados ao ouvir história oral.
Não é necessário o depoimento oral para saber um fato cronológico geral, porém aprende-se muito se ouvirmos o depoimento como representação política ritual, significado de uma experiência histórica, baseada na materialização de uma duplicação metafórica.
O entendimento de duplicidade metafórica depende da maneira como é ouvida e a forma de ouvi-la e interpreta-la é que indicará sua representação na escrita. O modo que levará os leitores ao entendimento textual dependera largamente da decisão do historiador em transcrevê-lo, respectivamente, como prosa linear, verso, epígrafe. A escolha dos gêneros na complexidade oral é na transcrição um sinal das responsabilidades dos historiadores.
O aumento considerável das curiosidades do historiador fez com que a aceitação da história oral pela história universitária progredisse consideravelmente nos últimos vinte e quatro anos. Apesar dos defeitos distorções e os esquecimentos que são atribuídos à memória não se devendo esquecer que a memória é também constitutiva da identidade pessoal e coletiva, tema caro a etnologia, mas que interessa igualmente aos historiadores orais.
É nítida a projeção do historiador nas pesquisas históricas, fato este que o historiador oral percebe com muito mais sensibilidade, pré supõe-se que a qualidade da entrevista depende também do envolvimento do entrevistador, e este obtém, em muitos casos melhores resultados quando levam em conta suas visões particulares.
A banalização da história oral está longe para acontecer, a multiplicação dos acervos fonográficos nos arquivos e museus, as várias reflexões metodológicas ligadas às disciplinas afins. Tal método é imprescindível para o dialogo com os diversos projetos que se encontram em impasses e buscam na fonte oral um meio para resolvê-lo, arquivistas e museólogos interessados em completar suas documentações, pedagogos, jornalistas, diversas instituições territoriais ou grupos em busca de identidades. E o enfrentamento das situações históricas extremas que acarretam profundas modificações traumáticas da memória.
Para muitos profissionais da história, a história oral substituirá a escrita e a racionalidade, mas esquece-se que a oralidade é a gênese da escrita. As fontes orais e escritas possuem em comum características autônomas e funções especificas que somente ambas separadamente podem preencher. Requerem instrumentos interpretativos diferentes e específicos, tornando estas fontes meros suportes para fontes tradicionais escritas.
A transcrição transforma fonte auditiva em visuais, fatalmente modificando as interpretações. Eis uma razão para desmerecer os novos e mais fechados métodos de transcrição “a expequitativa da transcrição substituir o teipe para propósitos científicos é equivalente a fazer críticas de arte em reprodução ou crítica literária em traduções. A mais literal tradução é dificilmente a melhor, e uma tradução sempre implica certa quantidade de invenção. O mesmo pode ser verdade para a transcrição de fontes orais.” ( Portelli.Apud.Projeto História 14, 1997: 34.).
Várias são as teorias de história oral, que de fato são teorias de história social como um todo. Os tons político do discurso popular carregam implícitos significados e conotações sociais irreproduzíveis na escrita. Para tornar o texto legível ou entendível, acrescentam-se pontuações e regras gramaticais que raramente coincide com o ritmo seguido pelo sujeito falante, terminando assim por confinar o discurso de regras não necessariamente seguidas por ele. O ritmo narrativo é modificado quando em relação à matéria em discursão, perceptível somente se ouve, não se lê. Pois as mudanças são normas do discurso enquanto que a regularidade são as normas da escrita. Tais modificações revelam as emoções do narrador sua participação na história e a forma no qual foi afetado pela história.“eles podem ser pobres em vocabulário, mas sempre mais ricos em variações de matizes, volume e entonação que os oradores da classe média, os quais aprendem a imitar no discurso a monotonia da escrita.” ( Portelli.Apud. Projeto História 14, 1997:39.).
As várias formas de manifestação das narrativas materializadas nos provérbios, formas estereótipos são características meditórias do grau na coletividade em que o indivíduo expositor está inserido, em síntese, a intrusão da memória coletiva.
Em relação aos eventos e significados, importa ressaltar que o que diferencia a história oral, é que a mesma nos conta menos sobre eventos que significados não implicando na validade factual da narrativa oral. A subjetividade do expositor é o mais precioso elemento que as fontes orais tem sobre o historiador. Fontes orais contam-nos não apenas o que o povo fez, mas seus anseios, o que acreditavam estar fazendo ou que fizeram.
Fontes orais podem não adicionar muito ao que sabemos, mas contam-nos bastante sobre seus custos psicológicos.
Não há falsas fontes orais, pois a importância do testemunho oral pode situar não em sua aderência ao fato, mas de sua preferência em seu afastamento dele como um desejo de emergir, simbolismo e imaginação.(Projeto História 14. Apud. Portelli, 1997: 43).
Corriqueiramente, documentos escritos são somente a transmissão sem controle de fontes orais não identificados. A transcrição ou transcriação para o documento escrito é sempre result ado de processos que não tem credibilidade cientifica, e estão freqüentemente carregados com tendências de classe. Mas a oralidade e a escrita no decorrer dos séculos não existiram separadamente, e se muitas fontes escritas são baseadas na oralidade, a oralidade moderna, por si está saturada de escrita.
A utilidade das fontes orais para o historiador, não encontra-se somente em preservar o passado, mas em exaltar as mudanças forjadas pela memória. Tal exaltação revela assim o esforço dos narradores em buscar sentido no passado e dar forma as suas vidas e colocar a entrevista e a narração em seu contexto histórico.
Ressalta Portelli, que as fontes orais não são objetivas. Os documentos de história oral são resultantes de um relacionamento onde o entrevistador e os entrevistados são envolvidos mesmo se não harmoniosamente. O conteúdo da fonte escrita é independente das necessidades e hipóteses do pesquisador, é um texto estável que não pode ser apenas interpretado. O conteúdo das fontes orais, por outro lado depende largamente dos entrevistadores põem em termos das questões, diálogos e relações pessoais.
O resultado final do trabalho é produto de ambos pesquisador e narrador. O trabalho histórico que se utiliza de fontes orais é infindável dada a natureza das fontes; o trabalho histórico que exclui fontes orais é incompleto.
As fontes orais não são suficientes mais necessárias para as histórias das classes não hegemônicas. Tais classes não possuem peso significativo para as classes dominantes, pois através dos tempos detêm o controle sobre a escrita, e deixaram registros muito mais abundantes.
O controle do discurso oral permanece firmemente nas mãos do historiador, pois o mesmo seleciona as pessoas que serão entrevistadas, que molda o testemunho colocando as questões e reagindo às respostas, que da a forma e o contexto final ao testemunho, em síntese, são os responsáveis pelo totalidade do discurso. Mas devendo agir com imparcialidade.
Jean-Noël Pelen, em Projeto História 22, retoma a noção de etnotexto no seu aspecto mais pertinente, desprezando a abordagem tradicional dos folcloristas que consideravam o material folclórico algo acabado e produzido, praticamente externo a qualquer contexto de produção e significação; e abordagem totalizadora dos etnólogos que tendem a não mais considerar o material nele próprio, em sua autonomia discursiva apresentando-o como uma espécie de texto obscuro sem linearidade narrativa pertinente, e se resta algo relativo ao sentido, só pode ser apreendido por meio de uma decifração, que vai dos contos aos ritos e as crenças entre outros. Sua noção baseia-se em escutar e recuperar de forma literal para a literatura oral o sentido que os seus próprios ouvintes e transmissores lhe atribuem.
A literatura oral mostra além da universalidade do fato literário o aspecto diversamente performático de seus materiais, considerados quanto à sua capacidade de adaptação de diversidade de culturas e épocas, bem como à diversidade de elaboração de seus modos de transmissão.
São cinco as orientações fundamentais da lógica própria do discurso e suas funções: o primeiro está ligado ao inicio da educação do indivíduo no mundo sócio-cultural, canções, contos... O segundo relaciona-se a memorização do saber concreto material ou moral, o clima os trabalhos a moral social... O terceiro define as principais regras que a comunidade deve observar para sobreviver enquanto sociedade humana, diferente dos outros animais. A quarta define as características espaciais sócio-ideológicas que dão fundamentos à comunidade distinta, não somente em relação aos animais, mas em relação às outras comunidades humanas. E em ultimo, a definição dos limites entre o mundo natural e sobrenatural, o aqui e o além, (narrativas fantásticas, mitos e lendas).
Pelen, referindo-se ao contexto discursivo determinado de obras da literatura oral observa que praticamente todas as produções literárias são complementares umas das outras. A multiplicidade das combinações possíveis dos textos somente se realiza em função da tendência geral do discurso que o texto vem operar. Não há contradição textual, pois não é a contradição que se almeja, mas a coesão. A literatura oral é a lei, a memória do que foi e deve ser. Ela enuncia e confirma a ordem estabelecida qual ela é o reflexo.
A literatura oral emerge com mais força, quando para se enunciar ela utiliza gêneros, tipos de argumentação diferentes que abrangem todos os domínios possíveis da vida cotidiana, apoiando-se na diversidade dos componentes da comunidade, pois cada gênero só ganharia sentido e força dentro de uma relação permanente com os demais.
Os vários discursos referenciais da constituição da comunidade, intimamente ligados uns aos outros em suas criações e histórias objetivas se expressam cada qual no presente, de modo especifico, especificidade obtida graças ao suporte lingüístico utilizado, dos tempos, lugares, modos e agentes de transmissão dos registros empregados.
A literatura oral, é por definição, processo de restituição mais ou menos difícil, mais ou menos fiel ao modelo de referencia preexistente, a partir do qual é preciso reproduzir, mas também produzir. Cada versão é ao mesmo tempo, reprodução e criação.
A memória literária engloba o instante que perdura. Assim colocando-se como de um ponto de vista exterior, não há acontecimento porque há tradição, mas que existe tradição para que não exista acontecimento. Todo questionamento pode estar revestido por uma produção literária, todo acontecimento, fator de risco para a ordem cultural das coisas, pode estar coberto por uma referencia literária, que imediatamente o integra a uma memória, ao já visto ao já sabido, ao já dito.A literatura oral, memória aberta e abrangente, absorvente e cautelosa com qualquer forma de explosão do novo, que colocaria em risco o presente, a eternidade do instante renovado pelo ontem.(Françoise Zonabende, 1980. projeto História 22. Apud. Pelen, 2001:67.).
A produção de uma versão é ser o descendente, para um dia tornar-se o ascendente, a fim de que a comunidade e, principalmente o texto de referencia memorial que é a sua garantia, bem como a literatura oral se perpetue.
A literatura oral não vai de encontro a história. Se o fato é afastado, é para poder assimilá-lo melhor, e conservar apenas o que ela deseja conservar, o resto da história está em outro lugar, não entra no quadro da literatura oral, pois essa ultima só se apodera do essencial, do que ela sente fazer parte da essência da comunidade.
Dentro da história é que se encontra a literatura oral, ela pode ser objeto de estudo de um historiador.
O discurso que uma determinada comunidade tem de sua literatura oral refere-se a sua história global, ou seja, a história da representação que ela tem de si mesma, dentro da história, uma vez que o papel da literatura oral no sentido literal do texto, é o de reproduzi-la, ou de representá-la.
A tradição oral do passado ou do presente, memória ativa e modelada filtrada dentro do discurso, da mesma memória que se tem dela para falar melhor de si mesma, para melhor servir ou sentimento vivido da história passada e presente.
Etnotexto, é o discurso que uma comunidade tem de si mesma, verdadeira trama de sentido no qual a comunidade se espelha, se reproduz, se codifica e se decifra, se desenrola e, principalmente, se garante e se legitima.(projeto História 22. Pelen, 2001:69.).
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BIBLIOGRAFIA
Usos e Abusos da História Oral. Organizadoras Marieta de Morais Ferreira. Janaina Amado. Fundação Getúlio Vargas.1996. Cultura e Representação. Projeto História-14. EDUC.1997.História e Oralidade. Projeto História 22. EDUC. 2001.
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Emílio Sarde Neto - Historiador
emiliosarde@gm-net.com.br
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(pesquisado em 5 Junho /2005 - clicando no título acede-se ao post; 1.ª edição na primeira versão do blogue "doutamente", por mt, a 5 Junho/2005)
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Emílio Sarde Neto - Historiador
emiliosarde@gm-net.com.br
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(pesquisado em 5 Junho /2005 - clicando no título acede-se ao post; 1.ª edição na primeira versão do blogue "doutamente", por mt, a 5 Junho/2005)
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HISTÓRIA E MEMÓRIA - Alberto Lins Caldas
Alberto Lins Caldas - Centro de Hermenêutica do Presente – UFRO
www.unir.br/~caldas/Alberto
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Sabemos, principalmente depois do século XX, ou pelo menos deveríamos saber, que a interioridade não é epifenômeno do “mundo social, econômico ou histórico”; não é reflexo nem modelo: é muito mais e muito menos: é feixe de leitura, de trajetos, de configurações singulares dos devires e cintilâncias ficcionais da comunidade: não pode representá-la: é momento singular de ficcionalidade: ao não ser reprodução, não representa a comunidade: é uma das leituras das suas configurações: das suas possibilidades narrativas, principalmente porque aquilo que chamamos mundo social ou realidade é muito mais rede viva de entrecruzamentos virtuais, ficcionalidades com sujeitos determinados e flutuantes numa práxis específica (um território virtual), que um ser natural, uma coisa com leis, estrutura e funções, equivalente ao objeto, única instância possível à lógica e à atuação da Ciência; objeto esse ainda assim fundado de antemão por fatores alheios à própria Ciência, anterior mesmo à sua ingênua objetividade; objeto que, por mais natural que pareça, é, antes de tudo, possibilitado por uma sociedade que o instaura como instância tratável por necessidades, sentidos, instrumentos, idéias, normas e métodos.
Sem esse antes e esse durante sociabilizado e historicizado não há nem sujeito, nem objeto, nem Ciência alguma. O objeto da Ciência não é algo que independa de uma ficcionalidade e seu sistema básico de crenças: sem ela não há nem o objeto nem a realidade: só há realidade para um sujeito, para uma sociedade, para o que se chama de presença: mas esses óbvios de origem, eixo e limite parecem que são absolutamente “esquecidos” por qualquer reflexão, não somente da reflexão em geral, mas, principalmente, daquela reflexão diretamente ligada às chamadas Ciências Humanas. Com esse “esquecimento” podem se instaurar como Ciência, possuindo métodos, normas, leis naturalizados e, consequentemente, respeitabilidade além das suas instabilidades, incertezas e imprecisões de constituição, funcionamento e validade.
A dimensão temporal da interioridade é a do presente. A atualização e a presença dessa interioridade faz parte do imediato do presente (aquilo que morde: a interioridade é uma exterioridade: só existe enquanto exteriorização já que seu fundamento é, essencialmente, comunidade, fazer e dizer: o dizer para si e, antes de tudo, um dizer para o outro). Mas sem as espessuras do presente não há interioridade, somente objeto. E não qualquer objeto, mas aquele que é mercadoria, o que vive agora para os fluxos do consumo e do consumismo. Aquele que se tornou espelho do sujeito, o espelho preferido.
Sem atravessarmos a reinstauração do sujeito pelas redes imaginárias dos objetos, não poderemos entender como o “nosso mundo” fez do presente um imediato do presente alienado e do sujeito um objeto castrado.
A partir daqui podemos entender também quanto o real se desgarra das historicidades, das composições ficcionais da sociabilidade, para se mostrar vivencialmente como coisa dada, ser natural, ente que só pode ser modificado por ação política que espere o desenrolar das coisas, seguindo as leis da ordem e do progresso ou com uma concepção revolucionária que, ao cabo do século XX, deixou as valas comuns e os cemitérios abarrotados com os que discordavam, os que aceitavam e os que nem sabiam o que acontecia.
Ao mesmo tempo o documento torna-se somente espelho do acontecimento: o espelho como imagem perfeita do natural procriando, que tanto pavor metafísico causava a Borges: nessa relação de causa e efeito se reproduz a mesma lógica geral de todo o sistema: a história mostra-se como espetáculo e a História como o espelho, a Ciência das cinzas desse espetáculo: a interioridade se perde entre sujeito objetificado e objeto desumanizado: seus textos, suas falas, suas vivências, sua narrativa fundante, sua escolha textual, tomam somente o rumo da fragmentação, da reprodução ou do ventriloquismo.
A relação entre o vivido e os textos sobre esse vivido (a teoria, o documento) é mais complexa do que tem dito as chamadas Ciências Sociais com seus esquecimentos providenciais.
O vivido é o imediato do presente, enquanto os textos são de uma espessura maior, de uma dimensão mais complexa, envolvendo mais elementos que o imediato da vivência: os textos fazem parte do conceito mais amplo ao qual chamamos presente: os textos são sempre post factum (post partum ou o Post tot tantosque labores, o “Depois de tantos e tão grandes trabalhos”, de Virgílio), o que surge depois, enquanto o vivido é aquele imediato onde acon/tece e se atualiza a vida, onde os fluxos ficcionais aparecem somente como realidade pura, universal e natural, numa constituição absolutamente independente de qualquer coisa: o nosso imediato do presente é a vivência de um sujeito no mundo do objeto e esse imediato, para nós, se torna o próprio presente, sem percebermos a profundidade e a extensão virtuais do viver social: a partir das dimensões do objeto tudo se torna restrito, clonável, unidimensional, científico: estrutura e função.
O relógio é a imagem mecânica dessa relação e dessa confusão entre a atualização e recriação do presente com sua espessura maior, com sua dimensão mais vasta: nos resta somente um tipo cada vez mais fino, cada vez menos extenso e complexo de imediato do presente: imediato sem o passado do presente.
A relação entre a narração, o texto e o vivido não pode ser direta, causa e efeito (sua legibilidade não se dá: advém somente no vão combate), mas ficcional (não aquele ficcional que entendemos como falsidade, mentira, ilusão, mas aquele que é sociabilidades coaguladas, teatro de existências, imaginário vivo formando mundo e singularidade) e, no caso das Ciências, esse texto é compreendido como aquele que diz o real, diz o vivido, sem prestar atenção na distância e na complexidade entre o vivido e o que sobre ele dizemos, de como o vivido é também “texto”, ficção, virtualidade.
O documento não pode ser, como sempre tem acontecido, referencia: o vivido não permanece: sua forma de existência, depois de acontecer, é tão somente a de uma existência textual, uma forma qualquer de narração, de texto, de ficcionalidade segunda: o documento é, necessariamente, referente por ter se constituído como objeto de discurso, presa de práticas sociais, capturado pelo desejo e pelas políticas.
O vivido, no momento do seu acontecer, não é uniforme, unilinear, visual, unifocal, mas presença viva de todas as dimensões, de todas as perspectivas, de todas as interioridades, olhos, mãos, corpos, sonhos, enganos, desejos, objetos, tecnologias.
Jamais poderemos tornar essa multiplicidade modelo metafísico de existência ou de busca: o vivido não tem espessura de existência, tem somente aparecer, são vivenciados e se esgotam nesse vivenciar, nesse degustar: os documentos, quando concebidos juridicamente, aceitam ou sintetizam perspectivas unilineares (que serão depois universalizadas) simplesmente porque enfrentar o vivido em seu fluxo seria perder a certeza científica de objeto e objetividade: seria aceitar as dimensões virtuais da ficcionalidade social: seria ter que abandonar o conceito tanto de documento, ganhando a dimensão de texto, de somente vestígio depois de se tornar discurso, quanto de História, até mesmo de Natureza, em detrimento de um conhecimento mais próximo das vivências gerais da ocidentalidade, tanto em termos de um conhecimento mais próximo quanto de um conhecimento distante.
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A memória é composição, fluxo rítmico de anexação e criação, momento narrativo, momento textual: determinada ordem “escolhida”, certa maneira de ler e dizer a experiência com e no vivido: é a experiência singular do sujeito ao dizer-se em movimento e relação: é a ficção segunda de uma vivência entre as ficcionalidades do mundo social: é a maneira singular de dizer e ordenar essas ficcionalidades: a memória é relação: como momento textual não é nem o passado nem uma narrativa definitiva: é um momento do sujeito que se traduz em ordem narrativa, em ordem de palavras: é elemento que se desdobra numa lógica de procriação similar ao cantar, ao recitar, ao sonhar.
Essa relação não se faz como cópia, reprodução, mas como criação narrativa. A relação feita, por exemplo, entre o corpo presente e o corpo passado não é relação física, mas relação de imaginários, pois o corpo, até mesmo quando o consideramos biológico, é imaginário coagulado, sociabilidade instaurada como corpo, vivida e considerada como corpo, possibilidade de infinitos corpos.
A espessura das memórias, fluxo narrativo que se integra aos fluxos ficcionais do mundo coletivo, faz parte da espessura que é o presente. Grande parte daquilo que é a dobra do presente, síntese viva entre todos os passados e suas atualizações na expressão de imediato do presente, é a memória enquanto concepção maior, além do pessoal e singular.
Dobramos e desdobramos nosso passado nas dimensões do presente com palavras e maneiras de ordenar esses textos interiores como numa espécie de “texto de ficção”: texto onde se integram indistintamente em sua armação virtual e dialética, a vivência, a imaginação, o desejo, as “estratégias narrativas”; juntamente com dinâmicos e estáticos cruzamentos seletivos sejam de palavras, de temas, de imagens, idéias, sonhos, significados; onde partes inteiras da vida, do permitido e do proibido, do vergonhoso e do indizível, do aceitável, do honroso e do desonroso, do falso e do verdadeiro, do significante e do insignificante, se interpenetram numa “única realidade”, um “único texto” possível de ser dito “em condições normais”: texto vivo e estereotipado, magma e signo, objeto e sujeito, tradição e singularidade, fundamento e fim de determinado vivido que jamais poderá ser novamente “visto exatamente como foi”, o que seria naturalizar o “vivido e sua memória”, naturalizar o “trabalho da memória”, o texto, deixando de vê-los como práxis desdobrando-se em palavras e consciência possível. Principalmente porque a “memória” não acontece num espaço físico, mas numa dimensão metafórica do fora que vai para dentro e que, ao se desdobrar, aparece como encontro consigo mesmo, atualizando as dimensões do presente, da consciência e do corpo. Daí porque o referente em História não é a “memória”, o “real”, o “social”, o “histórico” mas esse momento da interioridade textualizada, esse texto onde nasce, se movimenta e aparece o sujeito e seu mundo.
A interioridade é tão somente aquilo que está dentro, no interior, dentro de nós, aquilo que somos nós para nós mesmos. Não é fôrma, potência, arquétipo, modelo. No entanto, o dentro e o fora dependem de cada sociedade, de como entendem e vivem esse dentro e esse fora ou sua inexistência.
A interioridade ao não ser física ou biologicamente determinada, mas virtualidade viva, sociabilidade singularizada, possibilidade cultural, não tem uma estrutura, mas abertura a todas as possibilidades, a todas as leituras, todas as formas e todas as fôrmas de interioridades ou não interioridades possíveis, que possam ser criadas a partir de comunidades vivas que “introjetam” suas maneiras de ser e de deve-ser e se tornam o suporte dessa mesma interioridade, ou seu ponto de partida quando podem apreender seu fundamento.
Não existe a consciência enquanto universalidade ou sinônimo de interioridade genérica, mas somente interioridades que se referem à determinada comunidade-suporte, a determinado imaginário vivo, determinada rede viva de ficcionalidades. A pretensa forma ou estrutura da consciência é comunidade ocidental introjetada: somente a nossa mitologia criou o que podemos chamar de consciência enquanto modelo com características específicas que se dizem universais.
Aquilo que chamamos interioridade não é um ser ou um nada, muito menos estrutura, sistema, coisa ou modelo. A consciência é a específica e tradicional forma de interioridade ocidental, tipicamente cristã-burguesa, com características gerais e específicas dependendo historicamente da comunidade que a gera e a suporta, tornando-se seu limite e eixo externos, seu feixe principal de significados e possibilidade de compreensão; enquanto a memória é o desdobramento perspectivado “do que aconteceu com essa interioridade e seu corpo”: é processo narrativo, texto em movimento. Ao se desdobrar a interioridade encontra-se e encontra realidades vividas que marcam sua identidade, sua extensão, sua existência, sua forma de ser e significar. Sem esse desdobramento não há tempo, consciência ou memória.
A memória são desdobramentos contínuos e singulares que garantem vários tipos de identidade. Ao mesmo tempo, sua forma de se expressar é como texto e seu “trabalho interno” para chegar a esse texto é o mesmo de um tipo de criação literária.
A memória como campo do presente não quer dizer “atualismo”, mas que o presente enquanto dobra virtual tem na memória enquanto texto sobre texto, texto em movimento (interioridade em movimento, ficcionalidade viva) um dos elementos fundamentais de sua existência.
É a ficcionalidade da memória que em grande parte suporta as dimensões vivas da ficcionalidade viva do presente. Sem essa ficcionalidade o presente se tornaria tempo morto do relógio, sem profundidade, sem horizontes, sem dialeticidade e sem historicidade, numa existência naturalizada fora do vivido e da singularidade.
A memória (as memórias) é também garantia da constante modificação e permanência da dialogicidade e da polifonia, perspectivações das linguagens, nos sentidos da fala e da escrita, do corpo, das relações interpessoais e na constante criação da identidade narrativa.
Sem a existência do passado, é a memória um dos suportes das múltiplas formas de existência do presente, permitindo a continuação que reproduz as condições de vida, o equilíbrio e as referências grupais. Com isso, entendemos a memória não somente como criação pessoal, mas como construção polifônica da sociabilidade, criação coletiva que, por ser simbólica, cria as pontes que unificam e aproximam, num mesmo espaço vivido, as múltiplas dimensões da vida, as múltiplas experiências da vivência.
BIBLIOGRAFIA
1. ARIÈS, Philipp. O TEMPO DA HISTÓRIA. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1989.
2. Raymond, DIMENSIONES DE LA CONSCIENCIA HISTORICA. Fondo de Cultura, México, 1992.
3. BERLIN, Isaiah. VICO E HERDER. UnB, Brasília, 1982.
4. Ecléa. MEMÓRIA E SOCIEDADE: LEMBRANÇAS DE VELHOS. Companhia das Letras, São Paulo, 1995.
5. BRUNER, Jerome; WEISSER, Susan. A INVENÇÃO DO SER: A AUTOBIOGRAFIA E SUAS FORMAS. OLSON, David R.; TORRANCE, Nancy: CULTURA ESCRITA E ORALIDADE: 141-161, Ática, São Paulo, 1995.
6. CALDAS, Alberto Lins. ORALIDADE, TEXTO E HISTÓRIA. Loyola, São Paulo, 1999b.
7. ELIAS, Norbert. SOBRE O TEMPO. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1998.
8. FOGEL, Robert William; ELTON, G.R.. ¿CUÁL DE LOS CAMINOS AL PASADO?. Fondo de Cultura Económica, México, 1989.
9. GAGNEBIN, Jeanne Marie. SETE AULAS SOBRE LINGUAGEM, MEMÓRIA E HISTÓRIA. Imago, Rio de Janeiro, 1997.
10. HALBWACHS, Maurice. A MEMÓRIA COLETIVA. Vértice, São Paulo, 1990.
11. PASSERINI, Luisa. MITOBIOGRAFIA EM HISTÓRIA ORAL. In: Revista PROJETO HISTÓRIA, No 10: 29/40, São Paulo, 1993.
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(pesquisado em 5 junho /2005 - clicando no título acede-se ao post; 1.ª edição na primeira versão do blogue "doutamente", por mt, a 5 Junho/2005)
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www.unir.br/~caldas/Alberto
caldas@unir.br
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Sabemos, principalmente depois do século XX, ou pelo menos deveríamos saber, que a interioridade não é epifenômeno do “mundo social, econômico ou histórico”; não é reflexo nem modelo: é muito mais e muito menos: é feixe de leitura, de trajetos, de configurações singulares dos devires e cintilâncias ficcionais da comunidade: não pode representá-la: é momento singular de ficcionalidade: ao não ser reprodução, não representa a comunidade: é uma das leituras das suas configurações: das suas possibilidades narrativas, principalmente porque aquilo que chamamos mundo social ou realidade é muito mais rede viva de entrecruzamentos virtuais, ficcionalidades com sujeitos determinados e flutuantes numa práxis específica (um território virtual), que um ser natural, uma coisa com leis, estrutura e funções, equivalente ao objeto, única instância possível à lógica e à atuação da Ciência; objeto esse ainda assim fundado de antemão por fatores alheios à própria Ciência, anterior mesmo à sua ingênua objetividade; objeto que, por mais natural que pareça, é, antes de tudo, possibilitado por uma sociedade que o instaura como instância tratável por necessidades, sentidos, instrumentos, idéias, normas e métodos.
Sem esse antes e esse durante sociabilizado e historicizado não há nem sujeito, nem objeto, nem Ciência alguma. O objeto da Ciência não é algo que independa de uma ficcionalidade e seu sistema básico de crenças: sem ela não há nem o objeto nem a realidade: só há realidade para um sujeito, para uma sociedade, para o que se chama de presença: mas esses óbvios de origem, eixo e limite parecem que são absolutamente “esquecidos” por qualquer reflexão, não somente da reflexão em geral, mas, principalmente, daquela reflexão diretamente ligada às chamadas Ciências Humanas. Com esse “esquecimento” podem se instaurar como Ciência, possuindo métodos, normas, leis naturalizados e, consequentemente, respeitabilidade além das suas instabilidades, incertezas e imprecisões de constituição, funcionamento e validade.
A dimensão temporal da interioridade é a do presente. A atualização e a presença dessa interioridade faz parte do imediato do presente (aquilo que morde: a interioridade é uma exterioridade: só existe enquanto exteriorização já que seu fundamento é, essencialmente, comunidade, fazer e dizer: o dizer para si e, antes de tudo, um dizer para o outro). Mas sem as espessuras do presente não há interioridade, somente objeto. E não qualquer objeto, mas aquele que é mercadoria, o que vive agora para os fluxos do consumo e do consumismo. Aquele que se tornou espelho do sujeito, o espelho preferido.
Sem atravessarmos a reinstauração do sujeito pelas redes imaginárias dos objetos, não poderemos entender como o “nosso mundo” fez do presente um imediato do presente alienado e do sujeito um objeto castrado.
A partir daqui podemos entender também quanto o real se desgarra das historicidades, das composições ficcionais da sociabilidade, para se mostrar vivencialmente como coisa dada, ser natural, ente que só pode ser modificado por ação política que espere o desenrolar das coisas, seguindo as leis da ordem e do progresso ou com uma concepção revolucionária que, ao cabo do século XX, deixou as valas comuns e os cemitérios abarrotados com os que discordavam, os que aceitavam e os que nem sabiam o que acontecia.
Ao mesmo tempo o documento torna-se somente espelho do acontecimento: o espelho como imagem perfeita do natural procriando, que tanto pavor metafísico causava a Borges: nessa relação de causa e efeito se reproduz a mesma lógica geral de todo o sistema: a história mostra-se como espetáculo e a História como o espelho, a Ciência das cinzas desse espetáculo: a interioridade se perde entre sujeito objetificado e objeto desumanizado: seus textos, suas falas, suas vivências, sua narrativa fundante, sua escolha textual, tomam somente o rumo da fragmentação, da reprodução ou do ventriloquismo.
A relação entre o vivido e os textos sobre esse vivido (a teoria, o documento) é mais complexa do que tem dito as chamadas Ciências Sociais com seus esquecimentos providenciais.
O vivido é o imediato do presente, enquanto os textos são de uma espessura maior, de uma dimensão mais complexa, envolvendo mais elementos que o imediato da vivência: os textos fazem parte do conceito mais amplo ao qual chamamos presente: os textos são sempre post factum (post partum ou o Post tot tantosque labores, o “Depois de tantos e tão grandes trabalhos”, de Virgílio), o que surge depois, enquanto o vivido é aquele imediato onde acon/tece e se atualiza a vida, onde os fluxos ficcionais aparecem somente como realidade pura, universal e natural, numa constituição absolutamente independente de qualquer coisa: o nosso imediato do presente é a vivência de um sujeito no mundo do objeto e esse imediato, para nós, se torna o próprio presente, sem percebermos a profundidade e a extensão virtuais do viver social: a partir das dimensões do objeto tudo se torna restrito, clonável, unidimensional, científico: estrutura e função.
O relógio é a imagem mecânica dessa relação e dessa confusão entre a atualização e recriação do presente com sua espessura maior, com sua dimensão mais vasta: nos resta somente um tipo cada vez mais fino, cada vez menos extenso e complexo de imediato do presente: imediato sem o passado do presente.
A relação entre a narração, o texto e o vivido não pode ser direta, causa e efeito (sua legibilidade não se dá: advém somente no vão combate), mas ficcional (não aquele ficcional que entendemos como falsidade, mentira, ilusão, mas aquele que é sociabilidades coaguladas, teatro de existências, imaginário vivo formando mundo e singularidade) e, no caso das Ciências, esse texto é compreendido como aquele que diz o real, diz o vivido, sem prestar atenção na distância e na complexidade entre o vivido e o que sobre ele dizemos, de como o vivido é também “texto”, ficção, virtualidade.
O documento não pode ser, como sempre tem acontecido, referencia: o vivido não permanece: sua forma de existência, depois de acontecer, é tão somente a de uma existência textual, uma forma qualquer de narração, de texto, de ficcionalidade segunda: o documento é, necessariamente, referente por ter se constituído como objeto de discurso, presa de práticas sociais, capturado pelo desejo e pelas políticas.
O vivido, no momento do seu acontecer, não é uniforme, unilinear, visual, unifocal, mas presença viva de todas as dimensões, de todas as perspectivas, de todas as interioridades, olhos, mãos, corpos, sonhos, enganos, desejos, objetos, tecnologias.
Jamais poderemos tornar essa multiplicidade modelo metafísico de existência ou de busca: o vivido não tem espessura de existência, tem somente aparecer, são vivenciados e se esgotam nesse vivenciar, nesse degustar: os documentos, quando concebidos juridicamente, aceitam ou sintetizam perspectivas unilineares (que serão depois universalizadas) simplesmente porque enfrentar o vivido em seu fluxo seria perder a certeza científica de objeto e objetividade: seria aceitar as dimensões virtuais da ficcionalidade social: seria ter que abandonar o conceito tanto de documento, ganhando a dimensão de texto, de somente vestígio depois de se tornar discurso, quanto de História, até mesmo de Natureza, em detrimento de um conhecimento mais próximo das vivências gerais da ocidentalidade, tanto em termos de um conhecimento mais próximo quanto de um conhecimento distante.
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A memória é composição, fluxo rítmico de anexação e criação, momento narrativo, momento textual: determinada ordem “escolhida”, certa maneira de ler e dizer a experiência com e no vivido: é a experiência singular do sujeito ao dizer-se em movimento e relação: é a ficção segunda de uma vivência entre as ficcionalidades do mundo social: é a maneira singular de dizer e ordenar essas ficcionalidades: a memória é relação: como momento textual não é nem o passado nem uma narrativa definitiva: é um momento do sujeito que se traduz em ordem narrativa, em ordem de palavras: é elemento que se desdobra numa lógica de procriação similar ao cantar, ao recitar, ao sonhar.
Essa relação não se faz como cópia, reprodução, mas como criação narrativa. A relação feita, por exemplo, entre o corpo presente e o corpo passado não é relação física, mas relação de imaginários, pois o corpo, até mesmo quando o consideramos biológico, é imaginário coagulado, sociabilidade instaurada como corpo, vivida e considerada como corpo, possibilidade de infinitos corpos.
A espessura das memórias, fluxo narrativo que se integra aos fluxos ficcionais do mundo coletivo, faz parte da espessura que é o presente. Grande parte daquilo que é a dobra do presente, síntese viva entre todos os passados e suas atualizações na expressão de imediato do presente, é a memória enquanto concepção maior, além do pessoal e singular.
Dobramos e desdobramos nosso passado nas dimensões do presente com palavras e maneiras de ordenar esses textos interiores como numa espécie de “texto de ficção”: texto onde se integram indistintamente em sua armação virtual e dialética, a vivência, a imaginação, o desejo, as “estratégias narrativas”; juntamente com dinâmicos e estáticos cruzamentos seletivos sejam de palavras, de temas, de imagens, idéias, sonhos, significados; onde partes inteiras da vida, do permitido e do proibido, do vergonhoso e do indizível, do aceitável, do honroso e do desonroso, do falso e do verdadeiro, do significante e do insignificante, se interpenetram numa “única realidade”, um “único texto” possível de ser dito “em condições normais”: texto vivo e estereotipado, magma e signo, objeto e sujeito, tradição e singularidade, fundamento e fim de determinado vivido que jamais poderá ser novamente “visto exatamente como foi”, o que seria naturalizar o “vivido e sua memória”, naturalizar o “trabalho da memória”, o texto, deixando de vê-los como práxis desdobrando-se em palavras e consciência possível. Principalmente porque a “memória” não acontece num espaço físico, mas numa dimensão metafórica do fora que vai para dentro e que, ao se desdobrar, aparece como encontro consigo mesmo, atualizando as dimensões do presente, da consciência e do corpo. Daí porque o referente em História não é a “memória”, o “real”, o “social”, o “histórico” mas esse momento da interioridade textualizada, esse texto onde nasce, se movimenta e aparece o sujeito e seu mundo.
A interioridade é tão somente aquilo que está dentro, no interior, dentro de nós, aquilo que somos nós para nós mesmos. Não é fôrma, potência, arquétipo, modelo. No entanto, o dentro e o fora dependem de cada sociedade, de como entendem e vivem esse dentro e esse fora ou sua inexistência.
A interioridade ao não ser física ou biologicamente determinada, mas virtualidade viva, sociabilidade singularizada, possibilidade cultural, não tem uma estrutura, mas abertura a todas as possibilidades, a todas as leituras, todas as formas e todas as fôrmas de interioridades ou não interioridades possíveis, que possam ser criadas a partir de comunidades vivas que “introjetam” suas maneiras de ser e de deve-ser e se tornam o suporte dessa mesma interioridade, ou seu ponto de partida quando podem apreender seu fundamento.
Não existe a consciência enquanto universalidade ou sinônimo de interioridade genérica, mas somente interioridades que se referem à determinada comunidade-suporte, a determinado imaginário vivo, determinada rede viva de ficcionalidades. A pretensa forma ou estrutura da consciência é comunidade ocidental introjetada: somente a nossa mitologia criou o que podemos chamar de consciência enquanto modelo com características específicas que se dizem universais.
Aquilo que chamamos interioridade não é um ser ou um nada, muito menos estrutura, sistema, coisa ou modelo. A consciência é a específica e tradicional forma de interioridade ocidental, tipicamente cristã-burguesa, com características gerais e específicas dependendo historicamente da comunidade que a gera e a suporta, tornando-se seu limite e eixo externos, seu feixe principal de significados e possibilidade de compreensão; enquanto a memória é o desdobramento perspectivado “do que aconteceu com essa interioridade e seu corpo”: é processo narrativo, texto em movimento. Ao se desdobrar a interioridade encontra-se e encontra realidades vividas que marcam sua identidade, sua extensão, sua existência, sua forma de ser e significar. Sem esse desdobramento não há tempo, consciência ou memória.
A memória são desdobramentos contínuos e singulares que garantem vários tipos de identidade. Ao mesmo tempo, sua forma de se expressar é como texto e seu “trabalho interno” para chegar a esse texto é o mesmo de um tipo de criação literária.
A memória como campo do presente não quer dizer “atualismo”, mas que o presente enquanto dobra virtual tem na memória enquanto texto sobre texto, texto em movimento (interioridade em movimento, ficcionalidade viva) um dos elementos fundamentais de sua existência.
É a ficcionalidade da memória que em grande parte suporta as dimensões vivas da ficcionalidade viva do presente. Sem essa ficcionalidade o presente se tornaria tempo morto do relógio, sem profundidade, sem horizontes, sem dialeticidade e sem historicidade, numa existência naturalizada fora do vivido e da singularidade.
A memória (as memórias) é também garantia da constante modificação e permanência da dialogicidade e da polifonia, perspectivações das linguagens, nos sentidos da fala e da escrita, do corpo, das relações interpessoais e na constante criação da identidade narrativa.
Sem a existência do passado, é a memória um dos suportes das múltiplas formas de existência do presente, permitindo a continuação que reproduz as condições de vida, o equilíbrio e as referências grupais. Com isso, entendemos a memória não somente como criação pessoal, mas como construção polifônica da sociabilidade, criação coletiva que, por ser simbólica, cria as pontes que unificam e aproximam, num mesmo espaço vivido, as múltiplas dimensões da vida, as múltiplas experiências da vivência.
BIBLIOGRAFIA
1. ARIÈS, Philipp. O TEMPO DA HISTÓRIA. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1989.
2. Raymond, DIMENSIONES DE LA CONSCIENCIA HISTORICA. Fondo de Cultura, México, 1992.
3. BERLIN, Isaiah. VICO E HERDER. UnB, Brasília, 1982.
4. Ecléa. MEMÓRIA E SOCIEDADE: LEMBRANÇAS DE VELHOS. Companhia das Letras, São Paulo, 1995.
5. BRUNER, Jerome; WEISSER, Susan. A INVENÇÃO DO SER: A AUTOBIOGRAFIA E SUAS FORMAS. OLSON, David R.; TORRANCE, Nancy: CULTURA ESCRITA E ORALIDADE: 141-161, Ática, São Paulo, 1995.
6. CALDAS, Alberto Lins. ORALIDADE, TEXTO E HISTÓRIA. Loyola, São Paulo, 1999b.
7. ELIAS, Norbert. SOBRE O TEMPO. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1998.
8. FOGEL, Robert William; ELTON, G.R.. ¿CUÁL DE LOS CAMINOS AL PASADO?. Fondo de Cultura Económica, México, 1989.
9. GAGNEBIN, Jeanne Marie. SETE AULAS SOBRE LINGUAGEM, MEMÓRIA E HISTÓRIA. Imago, Rio de Janeiro, 1997.
10. HALBWACHS, Maurice. A MEMÓRIA COLETIVA. Vértice, São Paulo, 1990.
11. PASSERINI, Luisa. MITOBIOGRAFIA EM HISTÓRIA ORAL. In: Revista PROJETO HISTÓRIA, No 10: 29/40, São Paulo, 1993.
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(pesquisado em 5 junho /2005 - clicando no título acede-se ao post; 1.ª edição na primeira versão do blogue "doutamente", por mt, a 5 Junho/2005)
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segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Temporalistes – Publicação
TEMPORALISTES : historique et objectif du bulletin et de son réseau[1]
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«... Le temps est l’un des objets les mieux partagés dans les sciences humaines et sociales [2].Il paraît toutefois peu probable d’obtenir un jour un consensus général sur sa définition car chaque discipline défend sa propre conception du temps : la longue durée pour l’histoire, les durées brèves pour la psychologie, les rythmes endogènes pour les chronosciences, les temporalités sociales pour la sociologie, etc. [3] Comme le remarquait déjà Georges Gurvitch, la diversité des approches témoigne de l’existence de temps multiples, souvent divergents et parfois contradictoires, dont l’unification même partielle, qui représente un défi pour la pensée, relève de la métacognition[4]. C’est pourquoi le pluralisme temporel, en tant que position épistémologique fondée sur le travail de particularisation des temps, s’occupe peu de la catégorie générique et abstraite du temps. Ce paradigme nous engage plutôt à étudier les temps sous-jacents mais bien réels qui organisent et spécifient les milieux de vie.
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L’identification de ces temps et l’analyse de leurs effets constituent un vaste programme. Pour l’entreprendre, il fallait un outil permettant de recenser et de commenter les résultats de la recherche sur ces questions. Il revient à William Grossin de l’avoir conçu sous la forme d’une « lettre transdisciplinaire de liaison entre chercheurs attachés à l’étude des temps en sciences humaines » qui a reçu le nom de Temporalistes. Ce néologisme avait été introduit en 1982 dans le vocabulaire scientifique pour désigner les auteurs dont les travaux étaient centrés sur les temporalités individuelles et sociales[5]. La naissance de ce bulletin en 1984 coïncidait avec la disparition de la superbe revue Temps Libre[6]. L’intention n’était pas de rivaliser avec l’image qu’avait laissée dans le public cette savante publication mais plutôt de tirer les enseignements de son échec commercial. La consultation qui fut lancée par William Grossin dans un premier cercle rassemblant une vingtaine de chercheurs, devait permettre de définir les orientations de Temporalistes[7]. Elle déboucha sur trois décisions qui ont fait l’originalité de la lettre et auxquelles sont toujours restés fidèles les coéditeurs [8]: un choix de présentation, de contenu et de diffusion. La composition, toujours soignée mais réalisée avec de modestes moyens, a quelquefois surpris par son minimalisme. A l’exemple d’autres supports du même genre comme le Bulletin du Groupe d’Étude des Rythmes Biologiques[9], le souci des responsables était moins de flatter l’œil que de transmettre, dans les plus brefs délais et sous une forme claire, l’information scientifique. Un reformatage a toutefois été opéré récemment dans le but d’améliorer la présentation[10]. En revanche, les contenus ont évolué très rapidement pour devenir de véritables articles rédigés par des spécialistes de chaque champ disciplinaire. Cependant, l’équipe rédactionnelle n’a jamais négligé la recherche vive. Elle l’a même soutenue constamment en accueillant avec bienveillance les productions des jeunes chercheurs qui se sont toujours vu offrir, après expertise de leurs textes, des conseils pour les remanier suivis le plus souvent d’une opportunité de publication. Enfin les aides financières obtenues par les coéditeurs [11] ont permis d’assurer, pendant toutes ces années, un service gratuit auprès des lecteurs. Ce principe n’a jamais été remis en cause même pendant les périodes difficiles car il présentait l’avantage de pouvoir répondre à une demande sans cesse croissante tout en évitant de faire la chasse aux abonnements. Ces trois choix ne sont sans doute pas étrangers à la longévité de Temporalistes. La collection comporte à ce jour 43 numéros dont 25 numéros thématiques, qui ont été publiés au rythme de deux à trois livraisons par an. Après seize années d’existence, il est permis de penser que la formule a fait ses preuves, assurant à la lettre de liaison une bonne visibilité dans la communauté scientifique comme en témoignent les relations entretenues avec les membres de l’ISST[12] et les éditeurs de la revue Time & Society[13] ...»
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Jean-Marc RAMOS
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[1]. Extrait de RAMOS J-M. (2000). Les années temporalistes : vers une science des temps ?, in G. de Terssac et D-G. Tremblay (s/d), Où va le temps de travail ? Toulouse, Octares Éditions, 259-269.
[2]. En sociologie, la première étude consistante sur le temps est signée par un historien : Hubert H. (1909), Étude sommaire de la représentation du temps dans la religion et la magie. Dans H. Hubert et M. Mauss (Eds), Mélanges d’histoire des religions. Paris, Alcan, p. 189-229. En psychologie, l’œuvre du passé qui est considérée comme la plus congruente avec les théories cognitivistes modernes est celle d’un philosophe sociologue du XIXe siècle : Guyau J. (1889), La genèse de l’idée de temps. Paris, Alcan. On peut faire le même constat d’interdisciplinarité pour les influences. Emile Durkheim s’est appuyé, pour sa théorie du temps total, sur les arguments philosophiques d’Emmanuel Kant ; Maurice Halbwachs qui avait reçu dans sa jeunesse l’enseignement d’Henri Bergson, remarquera, vers la fin de sa vie, que sa conception de la mémoire collective présentait quelque parenté avec celle du psychopathologue Pierre Janet. Quant à Georges Gurvitch, il calquera volontairement sa définition des temps sociaux sur celle de Jean Piaget, spécialiste de l’épistémologie génétique.
[3]. Le problème du principe unificateur se pose parfois au sein même de la discipline comme le soulignent Marc Richelle et Helga Lejeune pour la psychologie (1988, pp.103-104) : « Les psychologues spécialistes du temps, bien qu’occupés d’un seul de ses aspects, semblent aujourd’hui unanimes à s’interroger sur les liens possibles entre les différents niveaux. Ils partagent l’hypothèse, voire la conviction, d’un principe unificateur, ou d’une continuité qui conférerait à la multiplicité de leurs recherches sur les temps une cohérence dont pourrait un jour rendre compte une théorie générale du temps psychologique » (Le temps psychologique, Revue de l’Université de Bruxelles, 1-2, 103-115).
[4]. Il existe au moins deux propositions en faveur d’un principe unificateur transdisciplinaire. La première consiste à rechercher des traits invariants de la notion de temps dans les représentations culturelles : Barreau H. (1999), Les invariants naturels et culturels de la représentation du temps face à la mondialisation. Communication présentée au Symposiun ISST - AFAS : Temps et mondialisation. Paris, le 5 novembre ; cette hypothèse apparaissait déjà dans un ouvrage collectif plus ancien : Ricoeur P. (1975), Les cultures et le temps. Paris, Payot. La seconde lui donne la forme d’un modèle organisateur reflétant différents niveaux de conscience du temps ; c’est « la théorie hiérarchique du temps » qui a été développée dans plusieurs ouvrages par le fondateur de l’International Society for the Study of Time : Fraser J.T. (1990), Of Time, Passion and Knowledge. Princeton : University Press.
[5]. Voir notre thèse p.75 : Ramos J-M. (1982), La notion de temps en psychologie sociale. Lille, Université de Lille III.
[6]. Cette revue transdisciplinaire était publiée par l’association Temps Libre et l’éditeur Denoël. Lancée en 1981, elle n’a connu que 14 numéros dont la qualité et l’iconographie furent toujours remarquables. Elle affichait une devise empruntée à Bergson : « Le temps est une invention ou il n’est rien ». Parmi les membres du comité scientifique, figuraient les noms d’Hélène Ahrweiler, Philippe Ariès, Jacques Le Goff, Henri Mendras et Michel Serres.
[7. Le « groupe des 20 » fut par la suite remplacé par un Comité-conseil dont les membres actuels sont : Pr. Jean Chesneaux (Paris), Dr. Adolfo Fernandez-Zoïla (Gentilly), Pr. Blanka Filipcova (Prague), Pr. Giovanni Gasparini (Milan), Pr. William Grossin (Nancy), Pr. Linda Hantrais (Loughborough), Dr. Jean-Marc Ramos (Montpellier), Dr. Nicole Samuel (Sceaux), Pr. Lorraine Savoie-Zajc (Hull), Pr. Roger Sue (Caen).
[8]. Les trois chercheurs qui ont successivement assisté William Grossin dans sa tâche sont Nicole Samuel (de 1984 à 1991 : n°1 au n°17), Roger Sue (de 1991 à 1993 : n°18 au n°25) et Jean-Marc Ramos (de 1994 à 1999 : du n°26 au n°40).
[9]. Publication trimestrielle éditée par le Groupe d’Étude des Rythmes Biologiques de la Société francophone de Chronobiologie. Le rédacteur du Bulletin était, jusqu’à une date récente, Lucien Baillaud de l’Université Blaise Pascal à Clermont-Ferrand.
[10]. Elle est due au soin de Jean-Pierre Gomes (Université Paul Valéry de Montpellier).
[11]. Temporalistes a toujours été publié avec le concours d’une institution ou d’un laboratoire de recherche : l’IRESCO-CNRS pour la première période (Nicole Samuel), l’équipe « Temps sociaux et Éducation permanente » de Paris V pour la deuxième (Roger Sue) et enfin l’Institut de Recherches Sociologiques et Anthropologiques de Montpellier III pour la troisième (Jean-Marc Ramos).
[12]. L’International Society for the Study of Time, fondée en 1966 par Julius T. Fraser, est « une organisation professionnelle de scientifiques et d’humanistes qui veulent explorer la notion et l’expérience du temps, ainsi que le rôle joué par le temps dans le monde physique, organique, intellectuel et social ». Cette société organise tous les trois ans un colloque international. Elle publie également, depuis 1974 et de manière apériodique, une lettre intitulée Time’s News. La présidence actuelle est assurée par un scientifique français : Rémy Lestienne.
[13]. C'est la revue de référence pour les études interdisciplinaires sur le temps. Elle a été fondée en 1992 par Barbara Adam. Ses éditeurs actuels sont le géographe Mike Crang et la sociologue Carmen Leccardi. Elle est publiée chez Sage.
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(1.ª edição no blogue por mt a 19/08/2007)
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«... Le temps est l’un des objets les mieux partagés dans les sciences humaines et sociales [2].Il paraît toutefois peu probable d’obtenir un jour un consensus général sur sa définition car chaque discipline défend sa propre conception du temps : la longue durée pour l’histoire, les durées brèves pour la psychologie, les rythmes endogènes pour les chronosciences, les temporalités sociales pour la sociologie, etc. [3] Comme le remarquait déjà Georges Gurvitch, la diversité des approches témoigne de l’existence de temps multiples, souvent divergents et parfois contradictoires, dont l’unification même partielle, qui représente un défi pour la pensée, relève de la métacognition[4]. C’est pourquoi le pluralisme temporel, en tant que position épistémologique fondée sur le travail de particularisation des temps, s’occupe peu de la catégorie générique et abstraite du temps. Ce paradigme nous engage plutôt à étudier les temps sous-jacents mais bien réels qui organisent et spécifient les milieux de vie.
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L’identification de ces temps et l’analyse de leurs effets constituent un vaste programme. Pour l’entreprendre, il fallait un outil permettant de recenser et de commenter les résultats de la recherche sur ces questions. Il revient à William Grossin de l’avoir conçu sous la forme d’une « lettre transdisciplinaire de liaison entre chercheurs attachés à l’étude des temps en sciences humaines » qui a reçu le nom de Temporalistes. Ce néologisme avait été introduit en 1982 dans le vocabulaire scientifique pour désigner les auteurs dont les travaux étaient centrés sur les temporalités individuelles et sociales[5]. La naissance de ce bulletin en 1984 coïncidait avec la disparition de la superbe revue Temps Libre[6]. L’intention n’était pas de rivaliser avec l’image qu’avait laissée dans le public cette savante publication mais plutôt de tirer les enseignements de son échec commercial. La consultation qui fut lancée par William Grossin dans un premier cercle rassemblant une vingtaine de chercheurs, devait permettre de définir les orientations de Temporalistes[7]. Elle déboucha sur trois décisions qui ont fait l’originalité de la lettre et auxquelles sont toujours restés fidèles les coéditeurs [8]: un choix de présentation, de contenu et de diffusion. La composition, toujours soignée mais réalisée avec de modestes moyens, a quelquefois surpris par son minimalisme. A l’exemple d’autres supports du même genre comme le Bulletin du Groupe d’Étude des Rythmes Biologiques[9], le souci des responsables était moins de flatter l’œil que de transmettre, dans les plus brefs délais et sous une forme claire, l’information scientifique. Un reformatage a toutefois été opéré récemment dans le but d’améliorer la présentation[10]. En revanche, les contenus ont évolué très rapidement pour devenir de véritables articles rédigés par des spécialistes de chaque champ disciplinaire. Cependant, l’équipe rédactionnelle n’a jamais négligé la recherche vive. Elle l’a même soutenue constamment en accueillant avec bienveillance les productions des jeunes chercheurs qui se sont toujours vu offrir, après expertise de leurs textes, des conseils pour les remanier suivis le plus souvent d’une opportunité de publication. Enfin les aides financières obtenues par les coéditeurs [11] ont permis d’assurer, pendant toutes ces années, un service gratuit auprès des lecteurs. Ce principe n’a jamais été remis en cause même pendant les périodes difficiles car il présentait l’avantage de pouvoir répondre à une demande sans cesse croissante tout en évitant de faire la chasse aux abonnements. Ces trois choix ne sont sans doute pas étrangers à la longévité de Temporalistes. La collection comporte à ce jour 43 numéros dont 25 numéros thématiques, qui ont été publiés au rythme de deux à trois livraisons par an. Après seize années d’existence, il est permis de penser que la formule a fait ses preuves, assurant à la lettre de liaison une bonne visibilité dans la communauté scientifique comme en témoignent les relations entretenues avec les membres de l’ISST[12] et les éditeurs de la revue Time & Society[13] ...»
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Jean-Marc RAMOS
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[1]. Extrait de RAMOS J-M. (2000). Les années temporalistes : vers une science des temps ?, in G. de Terssac et D-G. Tremblay (s/d), Où va le temps de travail ? Toulouse, Octares Éditions, 259-269.
[2]. En sociologie, la première étude consistante sur le temps est signée par un historien : Hubert H. (1909), Étude sommaire de la représentation du temps dans la religion et la magie. Dans H. Hubert et M. Mauss (Eds), Mélanges d’histoire des religions. Paris, Alcan, p. 189-229. En psychologie, l’œuvre du passé qui est considérée comme la plus congruente avec les théories cognitivistes modernes est celle d’un philosophe sociologue du XIXe siècle : Guyau J. (1889), La genèse de l’idée de temps. Paris, Alcan. On peut faire le même constat d’interdisciplinarité pour les influences. Emile Durkheim s’est appuyé, pour sa théorie du temps total, sur les arguments philosophiques d’Emmanuel Kant ; Maurice Halbwachs qui avait reçu dans sa jeunesse l’enseignement d’Henri Bergson, remarquera, vers la fin de sa vie, que sa conception de la mémoire collective présentait quelque parenté avec celle du psychopathologue Pierre Janet. Quant à Georges Gurvitch, il calquera volontairement sa définition des temps sociaux sur celle de Jean Piaget, spécialiste de l’épistémologie génétique.
[3]. Le problème du principe unificateur se pose parfois au sein même de la discipline comme le soulignent Marc Richelle et Helga Lejeune pour la psychologie (1988, pp.103-104) : « Les psychologues spécialistes du temps, bien qu’occupés d’un seul de ses aspects, semblent aujourd’hui unanimes à s’interroger sur les liens possibles entre les différents niveaux. Ils partagent l’hypothèse, voire la conviction, d’un principe unificateur, ou d’une continuité qui conférerait à la multiplicité de leurs recherches sur les temps une cohérence dont pourrait un jour rendre compte une théorie générale du temps psychologique » (Le temps psychologique, Revue de l’Université de Bruxelles, 1-2, 103-115).
[4]. Il existe au moins deux propositions en faveur d’un principe unificateur transdisciplinaire. La première consiste à rechercher des traits invariants de la notion de temps dans les représentations culturelles : Barreau H. (1999), Les invariants naturels et culturels de la représentation du temps face à la mondialisation. Communication présentée au Symposiun ISST - AFAS : Temps et mondialisation. Paris, le 5 novembre ; cette hypothèse apparaissait déjà dans un ouvrage collectif plus ancien : Ricoeur P. (1975), Les cultures et le temps. Paris, Payot. La seconde lui donne la forme d’un modèle organisateur reflétant différents niveaux de conscience du temps ; c’est « la théorie hiérarchique du temps » qui a été développée dans plusieurs ouvrages par le fondateur de l’International Society for the Study of Time : Fraser J.T. (1990), Of Time, Passion and Knowledge. Princeton : University Press.
[5]. Voir notre thèse p.75 : Ramos J-M. (1982), La notion de temps en psychologie sociale. Lille, Université de Lille III.
[6]. Cette revue transdisciplinaire était publiée par l’association Temps Libre et l’éditeur Denoël. Lancée en 1981, elle n’a connu que 14 numéros dont la qualité et l’iconographie furent toujours remarquables. Elle affichait une devise empruntée à Bergson : « Le temps est une invention ou il n’est rien ». Parmi les membres du comité scientifique, figuraient les noms d’Hélène Ahrweiler, Philippe Ariès, Jacques Le Goff, Henri Mendras et Michel Serres.
[7. Le « groupe des 20 » fut par la suite remplacé par un Comité-conseil dont les membres actuels sont : Pr. Jean Chesneaux (Paris), Dr. Adolfo Fernandez-Zoïla (Gentilly), Pr. Blanka Filipcova (Prague), Pr. Giovanni Gasparini (Milan), Pr. William Grossin (Nancy), Pr. Linda Hantrais (Loughborough), Dr. Jean-Marc Ramos (Montpellier), Dr. Nicole Samuel (Sceaux), Pr. Lorraine Savoie-Zajc (Hull), Pr. Roger Sue (Caen).
[8]. Les trois chercheurs qui ont successivement assisté William Grossin dans sa tâche sont Nicole Samuel (de 1984 à 1991 : n°1 au n°17), Roger Sue (de 1991 à 1993 : n°18 au n°25) et Jean-Marc Ramos (de 1994 à 1999 : du n°26 au n°40).
[9]. Publication trimestrielle éditée par le Groupe d’Étude des Rythmes Biologiques de la Société francophone de Chronobiologie. Le rédacteur du Bulletin était, jusqu’à une date récente, Lucien Baillaud de l’Université Blaise Pascal à Clermont-Ferrand.
[10]. Elle est due au soin de Jean-Pierre Gomes (Université Paul Valéry de Montpellier).
[11]. Temporalistes a toujours été publié avec le concours d’une institution ou d’un laboratoire de recherche : l’IRESCO-CNRS pour la première période (Nicole Samuel), l’équipe « Temps sociaux et Éducation permanente » de Paris V pour la deuxième (Roger Sue) et enfin l’Institut de Recherches Sociologiques et Anthropologiques de Montpellier III pour la troisième (Jean-Marc Ramos).
[12]. L’International Society for the Study of Time, fondée en 1966 par Julius T. Fraser, est « une organisation professionnelle de scientifiques et d’humanistes qui veulent explorer la notion et l’expérience du temps, ainsi que le rôle joué par le temps dans le monde physique, organique, intellectuel et social ». Cette société organise tous les trois ans un colloque international. Elle publie également, depuis 1974 et de manière apériodique, une lettre intitulée Time’s News. La présidence actuelle est assurée par un scientifique français : Rémy Lestienne.
[13]. C'est la revue de référence pour les études interdisciplinaires sur le temps. Elle a été fondée en 1992 par Barbara Adam. Ses éditeurs actuels sont le géographe Mike Crang et la sociologue Carmen Leccardi. Elle est publiée chez Sage.
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(1.ª edição no blogue por mt a 19/08/2007)
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